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22/09/2024

Moralidades à quinta-feira

Esta entrada vai ser escrita a contra gosto, apenas porque me tinha comprometido e devo cumprir. De facto estou cheia de sono e apetecia-me tudo menos escrever sobre moral. Havia então dito que exporia um defeito patente num destes postais e cá vai: a necessidade de me considerar num degrau superior faz-me desprezar unhas de gel e cabelos pintados de amarelo ou outra cor brilhante nelas e camisas e t-shirts justas a delinear braços e bíceps tatuados neles, sobretudo quando abrem a boca e toda a grosseria vem à tona. Ponho-me ainda num degrau superior quando as ditas e ditos já aprenderam a falar com advérbios e termos técnicos e dão lições de esperteza a quem com eles se cruza. E mantenho-me num degrau superior ainda quando apesar de já ridicularizarem os dois patamares anteriores demarcando-se deles e com algumas leituras e formação ao nível do mestrado ou mesmo do doutoramento, seja efectivo ou equiparável por experiência profissional ou intelectual, permanecem sem compreender o essencial da vida: substituindo o pensamento pela explicação e argumentação.


(Pergunto-me que pensarão da ilustração acima, quando é meramente exemplificativa e não inter-exclusiva; só os exemplos originariam um tratado e o questionamento da falta de sofisticação na sua escolha.)


De onde me vem este ascendente e altivez ridícula aos olhos dos outros, mas inelutáveis intimamente? Sem dúvida da desconsideração pelas capacidades dos outros – sobretudo, se lhes noto soberba, que considero sinal de falta de inteligência e sensibilidade - e da necessidade de me afirmar. Mas também do convencimento que observo melhor, mais profunda e justamente o mundo do que os outros. Da convicção de ter passado uma vida inteira de atenção aos outros, aos mais pequenos gestos e atitudes. Da consciência sempre presente da imensa ignorância que possuo, da constante curiosidade e da eterna dúvida.


No defeito do convencimento sou amplamente acompanhada. O que mais há no mundo é gente presunçosa. A diferença talvez seja que a maioria não assume e tenta disfarçar - diferente de corrigir. A meu ver, mal. De tal forma que se transformam em presunçosos dissimulados, daqueles que se mostram de modo interesseiro muito compreensivos com tudo e todos ou então os já mais acintosos que se consideram absolvidos da presunção só por elogiarem muito os mestres ou quem é conveniente à medida que cobiçam mais do que respeitam, à medida que pilham mais do que aprendem.


De qualquer modo, voltemos ao meu defeito: a presunção de pensar melhor. Ainda que sem a posse de toda a informação e conhecimento, presumo em regra que penso melhor do que a maioria. E admito. Detesto a falsa tolerância. Odeio sentir que estão a fazer de conta que respeitam um ponto de vista só para passarem a imagem de grandes democratas, quando é patente que quem o faz, geralmente, gosta da competição ou desporto da retórica, de manipular o discurso e as acções de modo a prejudicar não quem é nocivo ao mundo, mas quem não lhe traz vantagem pessoal. E mais do que tudo gosta da zombaria e só com ela se sente gente, se sente vencedor; e só com ela esconde a solidão.


Ser presunçoso já é suficientemente mau, valorizar ou desprezar outrem em função do lucro pessoal que se tira mesmo em prejuízo do todo é miserável. Espero não enfermar deste segundo defeito. Não me tenho nessa conta.


Mais uma quinta-feira com moralismos, mais motivos para as rentáveis zombarias das marés dos pretensos sofisticados. Sempre a mesma tecla, como se não houvesse assunto mais premente a tratar. Vá-se lá saber porque insisto nela neste mundo de tantas certezas fáceis e tão poucas decisões acertadas. Num tempo com tanta ladainha de tolerância muito instruída, de tanta aparência de incentivo desinteressado e tão pouca prática solidária.