[Actualizado] Isto de entremear postais antigos com actuais fica um pouco confuso, mas como sempre vale o apelo à atenção.
Esta manhã tenho um tempo extra para me dedicar às notas no blogue por se haverem esquecido de me atribuir a tarefa que consumiria mais do que o dia inteiro de trabalho – virá na segunda-feira, fecho do mês, o que me atolará de actividade.
Aproveito e registo a véspera da ida a Almada. Já comprei bilhetes de comboio com a antecedência habitual e lá se fará com vaivém de rotina que espero sem incidentes.
Ontem por ser dia de chuva e ter de fazer uma troca de presente de aniversário de peça de vestuário aproveitei e almocei aqui pela Boavista. Como é habitual fui à Bertrand, essa livraria de gente ignorante que não sabe escolher livreiros com pedigree para exibir sofisticação intelectual. Ia ao telefone a dizer à interlocutora que entraria na livraria, mas não faria compras. Promessas vãs. Entrei. Vi os escaparates e as habituais balelas badaladas entre os circuitos dos amigos com visibilidade no espaço público assente nas enjoativas trocas de favores e amizades interesseiras. Passei os olhos distraídos por várias mesas e fui dar como sempre à poesia. Ontem escolhi Paul Celan. Na caixa encontrei um dos meus “conhecidos” livreiros da casa e lá fomos de requitó para as mesas e estantes. Não sei sequer o nome do funcionário, mas conheço há anos o genuíno entusiasmo pela leitura a emprestar-lhe real brilho aos olhos e expressividade à voz quando fala do que gosta. Acerca de Paul Celan recordou um grupo antigo de amigos e a excitação quando começaram a lê-lo. Muito bonito, classificou com o olhar terno sobre a capa do livro que eu encontrara. Um pouco mais adiante na conversa falei da minha recente descoberta tardia de Gonçalo M. Tavares e da sua fabulosa ironia. Logo me levou à prateleira onde repousava a Uma Viagem à Índia. Já tinha passado os olhos pelo livro há um mês, mas contive-me. Assim fiquei com a apresentação viva deste livreiro dedicado e conversador entusiasta. Pois são Os Lusíadas actuais. Um homem contemporâneo resolve fazer a viagem à Índia, mas antes vai de avião a Londres e Paris. Hum, é verdade, e há ilha dos amores e tudo a fazer lembrar Kubrick. Tudo em prosa como se a forma fosse poesia. Claro que me convenceu, não a trazê-lo logo, porque nestas coisas das obras de arte convém namorá-las e não ensacá-las à primeira ou à segunda vez que se lança o olhar e folheia. Há que saber cortejar a literatura e a ironia. E como nasci com o rabo virado para a lua e comuniquei ao Nuno e à minha mãe que vou pôr o livro na lista para presentes de aniversário, já arranjei quem mo desse.
Mas ontem foi dia de Paul Celan, cujo A Morte É Uma Flor li logo ali sentada dum daqueles sofás do centro comercial. Ao meu lado enquanto lia os versos a companhia de um guarda-chuva preto de homem abandonado - sim, a discordância do sujeito é propositada. Esquecido por alguém que lá teria estado sentado antes e será distraído. Vale pelas multidões de amigos que trocam muita sabedoria e iluminação, de que prescindo em favor de poucas pessoas despretensiosas com alma e coração genuíno e próximo. Mais um judeu, no caso romeno filho de vítimas dos campos de concentração nazis, ele próprio também aprisionado até ser libertado pelos russos.
Todavia não gosto de biografias daquelas que falam muito em Paris e nas relações com outros autores do seu tempo. Soa tudo a falso quando rematado com o epíteto de portador de manias persecutórias internado em instituições psiquiátricas. Que dizem as relações do meio literário ou artístico da verdade? Quem estaria com ele no dia da partida anotado na agenda? Mais provável fosse um guarda-chuva abandonado pela morte anunciada do que um qualquer amigo de circunstância, daqueles muito barulhentos bem-sucedido que bate muito no peito a falar de amigos, amizade, coração e amores. Mais provável que tudo acabe em rótulo cego e na injustiça da Natureza. O que conta para a história dos eruditos da treta são as biografias fáceis e a exibição de certeza e sapiência vã. Ler o que escreve o autor é o que menos interessa aos iluminados citadores. Versos são carne para canhão - apenas mais um motivo inspiração para distorção e alarde protagonista.
Ah, é verdade. O livreiro também me aconselhou Sebastião da Gama. Há uma edição daquelas bonitas para oferta de Natal que começam sempre a surgir nesta altura do ano. Estou a ser injusta. Duplamente injusta. O funcionário não falou em ofertas de Natal nem neste tom sarcástico que pus agora. Como é evidente referiu o esquecimento a que foi votado e de que agora se tenta a remissão.