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11/09/2024

Sacudir a pasmada

A chuvosa temporada Outono-Inverno empestou de caruncho muitos ossos e ânimos e não fugiste à regra. Já os últimos dias de sol forçam sorrisos de esperança tímida, ainda receosa a escamar o musgo à pele. Dás por ti naquela precisão de programa, de desafogo. Instala-se a sensação mesclada de fastio e insubmissão perante apatia de vida. Não. Farta da vidinha casa-trabalho, trabalho-casa, piscina ao fim-de-semana, blogue-blogue, leituras reincidentes, uma ou outra quebra, mas as mesmas caras, os mesmos lugares. O Sol contou-te hoje que nem tudo se pode fazer das mesmas caras, das mesmas páginas escritas e lidas, das mesmas ruas. Tem-te dito isto a vida toda, é preciso que o oiças.


Hoje desceste a pé até ao local de trabalho e pelo caminho viste uma loja de artigos em segunda mão com um cartaz a anunciar que compram quase tudo. Logo te animaste com a ideia de despachares trastes inúteis. Há pouco rápida passaste os olhos pela casa e salvo aquele candeeiro laranja, que até hoje estás para saber o que te passou pela cabeça para comprar, não parece haver nada a livrar. Será apego ou haverá mesmo parcimónia? Dizem que compram roupa, aí sim tens muito para arejar. Mas nesse caso é mais útil continuar a dar. Desfaz-se a ideia de pequeníssimo negócio, porém fica a vontade de dar mais uma volta aos armários para libertar espaço – uma volta maior do que as habituais, mais pródiga, mais libertadora. Pronto, és portadora de um projecto, como agora se apelida toda a acção irrelevante.


Indo para o segundo plano. Sair, arejar, espairecer. Respirar. Não devia ser preciso planear o movimento de inspirar e expirar, mas é nisto que estás. Dois fins-de-semana por mês, dar corda aos sapatos e arranjar programa, especialmente de Sábado, já que ao Domingo apetece mesmo a ronha da vida caseira. Um Sábado para o conhecido – parques, praia, cidade. Outro Sábado destinado ao desconhecido ou há muito não vivido. E baralhar os dois. No habitual parque introduzir a novidade de alugar uma bicicleta para voltar ao gosto sem prática há tantos anos. Outra reminiscência: depois de muitos anos sem a mais pequena vontade de voltar aos bares, deste por ti com desejo de uma bebida rodeada de gente barulhenta – bom, semi-barulhenta, ou um nadinha ruidosa, vá, gente a falar em tom moderado, mas – gente desigual, outras paredes, caras, mesas e cadeiras, outros sofás, histórias e conversas, outros pensamentos e estados de espírito. E música in loco. Alguém te sugeriu o Hot Five, agora em Guerra Junqueiro. Boa ideia. Já havias pensado nisso há dois anos e protelaste. Tens de lá ir uma noite destas. Para já e no próximo Sábado vais ao WOW em Gaia, em regime de matinée - é preciso ir devagarinho.


Esboçar a quebra de enguiço quanto a fins-de-semana fora. No interior, de preferência. Que fosse uma saída por trimestre, já seria incremento. Turismo-rural para matar saudade, já que não tens a menor vontade de voltar ao teu paraíso. Queres deixá-lo intocado na memória, como foi. Está muito bem como está, e tu contente por se encontrar em boas mãos e com a vida que merece, mas precisas de distância para preservá-lo. Agora o mundo rural deverá fazer-se em terras estranhas, desconhecidas. Mas acontecer. Cá está outro projecto. Um fim-de-semana numa terriola que te encante – sabes que uma vez chegada e ao fim de cinco minutos estarás a idealizar casa com árvores e uma vida ali, até caíres na real e voltares de mala em punho aos laços apertados que te atam ao Porto. Será que algum dia os cortas?


E, por fim, ainda por decidir a viagem a Istambul, Ankara e Capadócia. Uma extravagância que seria merecida, crês. Ainda com friozinho na barriga – a ténue réstia do entusiasmo do que um dia foste, do que um dia desejaste ser. E o pó dos desejos irrealizáveis.


Num post habitual brincarias e dirias que todos estes planos são nados-mortos e quase nada se concretizaria. Dás sempre essa ideia de quem passa a vida a idealizar o que não concretiza. Não é verdade, se é certo que há muito por materializar, a tua vida fez-se bastante de ondas de vontades. Não se nota, nem queres que se note em demasia. Com felicidade Deus criou-te sem talento nem vontade para o fogo-de-artifício. Gostas bastante mais de viver do que fazer vista. Primas por pousar as exuberâncias, reduzindo-as ao comezinho e ao longo da vida muitas vezes viste confundir este traço com incapacidade, falta de interesse ou passividade. O que se percebe num tempo em que se privilegia o estardalhaço e o fictício. Além do que se o Universo te fosse satisfazer todas as vontades, sossegar todas as inquietações, suprir todas as insatisfações e  libertar de todas as angústias, não teria tempo nem oportunidade dele próprio existir e convenhamos que há prioridades e mais oito mil milhões de almas para acudir. Por saberes disto vais-te fazendo à vida, tratando das ninharias que te trazem contentamento. Se não atrapalhares a vida dos outros e fizeres pela tua, sendo independente, saudável e tendencialmente alegre, já ajudas. Uma filosofia de vida tão válida como outra qualquer - a que hoje em ti vinga.


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Adenda de 11-09-2024 (quase dois anos depois). Cumpri o desejo de visitar Istambul, Ankara e Capadócia em Outubro de 2023 e desde o momento em que escrevi este postal recomecei a sair mais. Não muito que me aborreceria, mas pontualmente. Fui ouvir jazz um punhado de vezes ao Hot Five, por exemplo. Fiz alguns fins-de-semana fora.Voltei a sair de férias para destino de praia. Em suma, alegrei-me. Julgo que também é para isso que devemos viver: para nos fazermos bem. Mesmo que o mundo em redor seja injusto e mesquinho e nos queira dar lições de tolerância da treta assentes na inveja e desdém pela independência, há que fazer por si próprio. Se cada um fizer por si já não é mau. E assim sigo imune a abusos e pedradas disfarçados.