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12/09/2024

Hiatos

Os dias são cheios de hiatos temporais. Mais uma vez de rajada, a primeira ideia, antes de avançar para algumas esboçadas em pensamento: daí o que escreves sair tantas vezes com tempos verbais aparentemente discordantes. As ideias atropelam-se em tempos – ou pessoas – diferentes. Quando lês os teus posts em voz alta acontece corrigirem-te o tempo verbal. Já pediste diversas vezes que não o fizessem. Isso poderá aprimorar-te e fazer coincidir mais com o tido por correcto, mas descaracteriza e tira verdade ao que dizes. E tens consciência do que são faltas de concordância. Todos os dias te atrapalhas em fazer concordar o singular do sujeito com o predicado. Às vezes a dúvida reside em saber que sujeito prevalece. Enfim, dramas existenciais enquanto vais ouvindo pela enésima vez os The Doors. Continuas a adorar ouvi-los como há trinta anos. Teres colocado ontem o vídeo deve-se ao facto de uma colega de trabalho ter dito que estava bem-disposta de manhã por haver ouvido (no carro, crês) uma música deles. Associas sempre os The Doors a uma das primeiras saídas nocturnas. A passagem de ano quando tinhas 13 ou 14 (nunca sabes, erras sempre por 12 meses). Acompanhando os teus irmãos e o grupo de amigos deles – por volta dessa altura criarias laços de amizades próprios, precisavas de independência e também de ter e dar atenção a gente com quem sentisses afinidade. Nessa noite passaram música dos Doors: e não esqueces da impactante frase de abertura: Ladies and gentlemen from Los Angeles California The Doors, antes da enérgica entrada da bateria. Aquilo era todo um mundo e a música fabulosa – ficavas anestesiada ao ouvir a bateria, a guitarra e a voz de Jim Morrison, tal como ficas hoje. Nos anos seguintes ouvirias vezes sem conta a cassete de um dos teus irmãos – nem sabes bem de qual dos dois mais velhos. Parece que têm gostos musicais muito diferentes. Não fazes questão de saber quais, vais, como foste sempre, aproveitando daqui e dali.


Vejamos, estás a ouvir um concerto do início dos anos 70, com toda a ambiência, sonoridade e fumos da época, saltaste até uma discoteca em meados da década de 80, numa das primeiras saídas à noite – durante os anos seguintes as saídas a bares e discotecas foram raras, só começaste a sair com frequência mais tarde. Até aos 18 tinhas o hábito – e perdurou por vários anos – do café em grupo depois do jantar e até tarde, mas nos cafés das redondezas de casa. E estás a contar isto, agora, nos anos 20 do século XXI, muito para lá do que imaginavas quando adivinhavas o futuro. Lembras-te de em novita pensares no ano 2016. Não sabes porquê, também não é importante. Ontem, numa noite dos anos 20 do século XXI, quase acabaste um livro começado há meses, cujo enredo se desenrola no século XIX. Deliciada com a pureza de sentimentos, ris-te com o facto de teres pesquisado hoje informação sobre o romance e descobrires uma enormidade de intrincados significados que apesar de entenderes bem, sempre achas excessivos e dispensáveis. Ah, a sofisticação, a necessidade de explicação e rebusque é tanta. Quando quase tudo quanto retiras para ti do romance que acabarás hoje de ler, é que o devias ter lido nessa altura que ouvias The Doors numa discoteca pela primeira vez. Era tudo tão mais simples na vida, apesar dos críticos literários conseguirem sempre juízos do arco-da-velha para ter o que dizer sobre o óbvio. Tudo isto no entremeio de conversas sobre o facínora do Putin que é figura fruto do século XX, florescida em pleno na primeira vintena de anos do século XXI.


Hoje discursou, a besta. E claro o mundo parou para o ouvir. Há uma coisa que te assusta na atitude pensante de muitos comentadores. Chamas: estupidez de menina tonta. Parece machista e talvez seja, mas se não admitisses que assim apelidas não estarias a ser honesta, e não gostas de fugir à franqueza. Mas onde está a estupidez, afinal? No constante desacreditar da inteligência de Putin. E a menina tonta de onde vem? No facto de conheceres entre muitas meninas este tipo de argumento: ah, é racista porque é ignorante, é machista porque é ignorante, é xenófobo porque é ignorante. A menina tonta pensa erroneamente que o conhecimento é garantia de bondade. Não é. As meninas e os meninos tontos julgam que a informação, a leitura afastam os homens da barbárie. Não afastam. Era bom que assim fosse. Os jornais e as livrarias ocupariam as farmácias, os jornais e os livros substituiriam os ansiolíticos, os antidepressivos e antipsicóticos. Era muito bom que assim fosse, mas infelizmente a realidade é um pouco diferente. Isto a propósito das análises aos discursos de Putin, que menorizam a inteligência do facínora ou a sua falta de conhecimentos históricos, militares ou de qualquer outra natureza. Subvalorizar o inimigo não é muito inteligente. E bem sabes que se vive na sociedade de informação e imagem veloz, na qual se pode destruir um perfil através da montagem artificial de retrato pejorativo. É claro que pode haver uma estratégia de desacreditação para enfraquecer o criminoso. Isso faz sentido, o que não faz é acreditar em fraquezas do inimigo que não existem. O perigo não está em exteriorizar a fraqueza de Putin, expondo-a, mas interiorizá-la, acreditando nela. Voltemos à bondade do conhecimento. Dizem-me que há qualquer coisa de Platão nisto. Há, mas não vou explorar. Obrigar-me-ia a ler e quero continuar o presente texto. Procurem a coincidência entre o bem e a sabedoria por contraposição da correspondência entre o mal e a ignorância. Tudo isto para dizer que se este facínora suspendeu o mundo não é com certeza burro. É um criminoso, mas não um imbecil. Tal como o Ocidente não é a entidade virtuosa impoluta propalada na comunicação social, pelo que conviria ouvir como Putin a demoniza.


A vida é feita também de pequenos episódios. No Domingo compraste finalmente uma nova capa transparente e maleável para o telemóvel. Há mais de um ano andavas para mudar a tua, que já metia nojo de tão amarelecida. Tinhas tentado comprar, mas não encontrando logo, acabaste por protelar. O caso típico de procrastinar – quem diria vires a utilizar este verbo em coisa tão pequena -, constitui, esse sim, um irritante para a vida. Mais do que as grandes decisões que dariam origem a grandes arrependimentos. O facto é que há mais de um ano em várias situações quando vais pousar o telemóvel nalgum lugar visível aos outros, pensas: dá mau ar, está com um ar sujo. Mas não havias tomado a decisão de resolver o pequeno irritante até à semana passada. Mandaste vir da internet uma – que só hoje viste estar na caixa de correio -, mas como passaste no Domingo em frente a uma loja de capas no centro comercial acabaste por comprar outra, além de colocar novo filtro, e trazer – gratuito, dizem eles; só rindo – uns auscultadores pretos de fio. Ficaste contente com este terceiro artigo gratuito por andares sempre com fios brancos que berram muito. Preferes a discrição dos pretos. Só não te habituas aos de prender apenas na orelha, sem fio. Trapalhona como és, se os levasses para a rua, perdê-los-ias no primeiro dia.


Para terminar uma alusão à ida de hoje ao supermercado, que o André Ventura vai gostar. Precisavas de comida para o gato e, julgavas, café. Afinal tinhas uma caixa de cápsulas em casa. Lá foste, trouxeste também morangos e bananas – gostas da ligação destes frutos. Nos últimos anos tens ingerido mais fruta, por influência do Nuno, que não passa sem ela. Antes de viveres com ele tinhas perdido um pouco o hábito, mas regressaste em força e hoje a fruta é um alimento fundamental cá de casa, como se deve notar pelas fotografias da cozinha. Voltando ao supermercado. Foste para a caixa. Quando ias começar a ser atendida por um português de origem africana, reparaste que atrás dele, na outra caixa, estava um casal originário do Sul da Ásia. Como sabes as proveniências? É evidente que num caso pode ser português há várias gerações e no outro podiam até ter vindo de outra parte do mundo, mas as feições, a tez e a língua assim o indicavam. A filha do casal, que teria por volta dos sete anos, começou a mexer nas caixas de cartão pousadas sobre a mesa do funcionário. Retirou qualquer coisa que meteu ao bolso. Viste. Não disseste nada, mas devias ter dito. Em seguida tirou mais coisas, o empregado da caixa viu. Olhou para ela, mas não disse nada, ficou hesitante, com medo. A mãe da miúda olhou, percebeu e riu-se. Entretanto ao meteres as coisas no saco não sabes se a miúda devolveu o que tirou, mas crês que não. E foi assim. O certo seria tu teres feito sinal ao caixa para que percebesse de início que a criança estava a furtar qualquer coisa ou mesmo dirigires-te directamente à criança. O certo seria que o caixa pudesse dizer à criança que devolvesse o que tirou. O certo seria que a mãe repreendesse a filha. Nada disto se verificou e isto não é bom sinal. Uma coisa simples que é o instinto de uma criança que deve ser educada, como qualquer criança que faz asneiritas, é empolada pela lata ou distracção da mãe e o silêncio e medo de melindrar do caixa e teu. Silêncio e medo resultante da mentalidade dominante: das acusações disparatadas ou exageradas de xenofobia. É preciso distinguir o certo do errado. É errado não tratar bem estrangeiros, o certo é tratá-los de modo igual aos nacionais, com correcção, mas não é certo temê-los quando agem de modo impróprio, vingando o silêncio e a permissividade. E isto será válido para o caso da criança ser portuguesa. Porque também aí existe silêncio e medo de fazer reparos a quem age mal. Quantos vêem atitudes reprováveis de gente sem educação – portuguesa ou estrangeira - e fecham os olhos para evitarem problemas?