Há largos anos ouvi uma senhora muito senhora (não há aqui ironia, mas elogio) numa entrevista da televisão, referindo-se a relações, dizendo que era uma mulher completamente diferente do que fora trinta ou quarenta anos antes. A senhora em causa rondaria à época os 70 anos e lembro-me de ter fixado aquela necessidade de justificação ou afirmação muito feminina. Muitas mulheres sentem a necessidade de pedir que não as confundam com o que foram noutros momentos da vida. No caso seria uma espécie de vergonha da ingenuidade, da falta de sabedoria e desenvoltura, o que não deixa de ser curioso. Há mulheres que pedem desculpa por não terem nascido inteligentes, cultas, bonitas, sabidas. Ao que parece seria obrigação.
À medida que o tempo corre muitas mulheres passam a entender o quão pouco completas e sábias eram em novas e que ideia errada fazem da maturidade. E quão mais cheias de vida ficam quando mais velhas. Isto parece não jogar com uma sociedade que enaltece a juventude, mas é como tudo: o ouro está guardado pelo silêncio da sabedoria. Como o Vinho do Porto.
Isto poderá não valer como regra, não sendo a sensação de muitas outras mulheres mais voltadas para as felicidades do passado, mas é o sentimento de várias que conheço, as quais tendo aproveitado a juventude não deixam de gozar em pleno a maturidade.
Para que não se pense que há bairrismo no básico título e fácil associação da maturidade ao Vinho do Porto: a simpática senhora da entrevista é lisboeta de gema e tudo quanto menos interessa é saber quem é. Não há aqui espaço para chamariz.
Veio isto a despropósito de ter lido por aí outra senhora referindo-se ao sábio gosto pela tranquilidade e relativa solidão.