Como distinguir o videirinho do apreciador da vida? No desprezo pelos outros. Seja o exemplo da leitura: ao primeiro interessa vender os seus livros e as “obras” dos amigos ou do clã, apesar de tantas vezes o fazer a pretexto de incutir o hábito de leitura e critérios de qualidade no país, o segundo gosta de compartilhar o prazer da leitura com outros independentemente das vantagens pessoais daí retiradas. No primeiro o crivo está no negócio, nas relações, afinidades e interesses em vez do genuíno gosto pela leitura. Daí a conveniência de dividir o mundo entre gente “respeitável” e gente medíocre e perder muito tempo com grandes teorias e estatísticas sobre os maus hábitos de leitura dos portugueses. Há sempre o dia no ano – os videirinhos adoram efemérides – para atirar à cara dos portugueses que não lêem por serem ignorantes. Como se isso os preocupasse genuinamente. Vale sim a enorme hipocrisia de quem tudo faz para manter a situação. O método para continuar a promover a vaidade de meia-dúzia de apaniguados, desprezando autores que vendem e são estimados pelo grande público – os autores menores. Como se uma população inteira só pudesse ler a nata da literatura e tudo o resto fosse votado ao escárnio numa demonstração de elitismo de fancaria tão portuguesa. E como se essa qualidade existisse de facto nos amigos promovidos. Às vezes, estes ilustres divulgadores promovem pouco mais o que lixo. Casos há que poesia ou prosa pouco mais do que sofrível é alçada à categoria de “a melhor” e os seus autores “os melhores” – rótulos que valem pelo número de vezes que são papagueados pelos promotores e editores de ocasião – uma mentira repetida muitas vezes torna-se verdade. Promover o amiguismo e tachismo é típico do nosso país e a fórmula certa de manter a população longe dos livros – o grande objectivo dos videirinhos é manter o fosso entre pretensos literatos e ignorantes para continuarem a reinar. Tudo quando seja estreitar laços com independência e sem preconceitos, trazer gente à leitura e respeitar os gostos simples pela leitura é visto com desconfiança por gente sem grande valor mas cheia de si, que vinga à custa das redes de interesse e da bajulação – por gente que não quer perder o tacho.