


Esta manhã fomos até ao Parque da Cidade e ao Castelo do Queijo - Forte de São Francisco Xavier para os rigorosos. O destino usual nalguns fins-de-semana. Umas vezes de autocarro, outras de Uber. Quando me imaginava viver noutra cidade ficava sempre hesitante em afastar-me do mar. Da única vez que pensei a sério sair do país fui despedir-me do Paredão do Molhe - nem dois meses depois estava de volta. Duas semanas após a aventura fora de Portugal concorri a um emprego num banco em Lisboa - no currículo coloquei duas moradas, uma do Porto outra de uma amiga da época de Lisboa. Quando cheguei à entrevista disseram-me que havia posto de trabalho igual no Porto. Agradeci a todos os santos e voltei num ápice, no dia seguinte estava nas instalações desse banco na Boavista - um dos vários empregos que durou pouco. Admito que sou bairrista: é paixão pela cidade do Porto, mesmo. Não tendo nascido cá, sinto-a como ninho, sinto-a minha. O meu lugar. E sei que isso é tesouro imenso: viver numa terra a que se possa chamar nossa.



O Parque da Cidade é o melhor lugar para respirar por aqui. Vou lá habitualmente há quase 30 anos - quando vivia em Gaia rivalizava com o Parque Biológico. Acompanhei o crescimento das árvores. Gosto de calcorrear as pedras e a terra batida ainda humedecidas das últimas chuvas, calcar e escorregar na erva molhada, abrir as narinas especialmente ao passar junto dos eucaliptos e sentir-me bem enquanto reparo no movimento das famílias com crianças a rodar bicicletas, dos casais numa de exercício físico, das parelhas de amigas septuagenárias a conversar, dos solitários e meditativos homens seniores, da rapariga sozinha a ouvir música nos auscultadores, da jovem pintora que no seu cavalete retrata um grupo de miúdos nos jogos, do cinquentão que lê e pousa o livro para sobre ele reflectir, dos frenéticos corredores isolados, dos casais de namorados, dos pares de homens a conversar enquanto pedalam as bicicletas, dos grupos de aniversários em piqueniques, das crianças a jogar futebol, dos velejadores remotos dos barquinhos telecomandados. Tudo isto é o melhor dos luxos. O luxo bom: a riqueza vivida na presença e com a cumplicidade da erva, das árvores, enfim, de toda a vegetação. Dos patos, dos garnisés, dos cães, em cada vez maior número a passear os donos reunidos em magotes de tagarelice recém conhecida por causa dos canídeos. Contrasta com a palavra luxo no sentido negativo que lhe dou: dos mármores. Dos hotéis e outros edifícios construídos e decorados a mármore e supostamente embelezados a dourado. Mingo nesses sítios, fico amachucada. Definho. Acho gélido, impessoal. Sinto esse luxo como a pedra da mesa da morgue. Definitivamente, não gosto. Voltando ao parque, quando passa muito tempo sem lá ir compreendo que me falta verde. A ligação às plantas influi na minha disposição. Apesar de gostar da zona da cidade onde vivo, muito central, peca pelo defeito de sendo uma zona antiga do Porto estar muito saturada de casas, sem arborização. Claro que há os quintais de algumas casas que vão pontuando as traseiras. Há quem ache isso suficiente - os intelectuais do urbanismo que cimentam as cidades com as suas ideias poluídas, achando-se sofisticadíssimos ao afastarem-se da natureza. A zona precisava de um parque - às vezes sonho com um jardinzito no local do Quartel, mas não passa disso, de sonho: já está destinado ser demolido para urbanizar no pretexto bonzinho da necessidade de habitação económica para jovens.