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18/09/2024

Diário

E fechou uma semana de trabalho. Dias que acabaram de modo diferente, com a chegada a casa, confecção e desfrute do jantar logo seguido de dormida no sofá. O sono tomou-me de assalto mal terminava o jantar, pelo que dormi todos os dias até cerca da meia-noite, ficando acordada as horas seguintes até por volta das quatro da manhã dormir o restante, o necessário a permitir manter-me operacional no dia seguinte. Neste fim-de-semana reporei os sonos nos horários normais para não abusar da sorte. É bem verdade que convém testar o organismo e o cérebro de quando em quando para ver se ainda obedece a desajustes com a elasticidade suficiente para voltar à normalidade. Mas não convém abusar.


As madrugadas despertas feitas de conversa, leitura e pensamento solto. O telefone continua a fazer-me testes de personalidade – já é maquinal: esta semana fiquei a saber que sou leal e altruísta. Pergunto-me a razão desta psicologia de algibeira, que enche os conteúdos do algoritmo de uma população mundial tonta, nunca dar respostas negativas. Porque não soluções como estas: caro leitor, se viu primeiro o pássaro é uma pessoa extremamente egoísta e desagradável; se viu primeiro o lago não passa de uma trafulha de meia-tigela, se não conseguiu ver as três diferenças em dez segundos é um calhau. Qual será o motivo para todos sermos brindados com esfregas do ego e na vaidade? O mercado, a força virtuosa das leis do mercado aplicadas à psicologia e a toda a panaceia de entretém. Esta fábula e mentira cria uma mentalidade na qual não há o menor pudor no auto-elogio. Com tantos a afirmarem-se ou a insinuarem-se gente de carácter, bem-resolvida, inteligente, perfeccionista, trabalhadora, culta, amiga do seu amigo, bem-humorada, bonita, leal, cheia de força de vontade etc e tal. Interessa inchar egos para os manter compradores desta banha da cobra que enche as páginas online. Nada de confrontações com a crua realidade. Apontar defeitos só ao adversário para criar conflito artificial e vender ainda mais banha da cobra. Ou exibir casos reais ou ficcionais de aberrações morais para unir população em volta de uma confortável unanimidade moral - nada vende mais. Opinião diferente só sobre o inócuo para criar aparência de debate e pluralidade de pontos de vista, comoção e audiência. Hordas de leitores dos conteúdos instantâneos online insuflados na vaidade e na certeza. Um protagonista, um herói atrás de cada ecrã, um iluminado e imaculado, sem sombra de dúvida a ensombrar o seu espírito. Se alguma houver, logo será dissipada com um consultar da internet e a certeza refará em segundos o super-homem.


O salto do lifestyle para a informação e a opinião não é infelizmente qualitativo. Mesmo quando há um esforço de reflexão, são tantos os grilhões do preconceito que a maioria da opinião pouco acrescenta ao entendimento do mundo actual. Os vícios são diferentes das páginas de entretém referidas no parágrafo anterior. Aqui não prevalecem as palavras doces e adoráveis para ludibriar almas pouco ambiciosas. Nem o apelo ao linchamento pela exibição de aberrações morais reais ou de ficção. Aqui elas são motivo de glosa intelectual e móbil para cisão de opinião. É um mercado diferente. Mais exigente. Da massa de gente uniforme e indiferenciada, fácil de levar no engodo da avalancha de massificação e manipulação do pensamento, germinam algumas tribos que se têm por sofisticadas por nascimento, educação, formação ou rede de interesses. Gente crente que por ter nascido no seio de famílias com educação ou acesso a um percurso académico ou profissional mais rico ou a círculos de relações de conveniência tem o caminho do conhecimento e da iluminação aberto. Sucede que a Natureza e, em particular a natureza humana, troca as voltas às ladainhas fáceis: o carácter positivo da aspiração à educação e ao conhecimento como formas de aperfeiçoamento pessoal descambam amiúde na triste realidade da ambição desmedida. O conforto intelectual dado pelo nascimento, educação, formação ou relações interesseiras não é garantia de busca de autoconsciência, radicando a opinião numerosas vezes, ainda que reflectida, em mundividências tribais, que mais não são senão ancoradouros para manter o poder ou privilégios de grupo. Assim nascem redes de propagadores de linhas de opinião decalcadas entre si. Estes grupos de amigos de conveniência e conhecidos com valor muito variável – uma associação de néscios voluntariosos e úteis, pequenos ambiciosos e manipuladores encartados - ganham notoriedade e força necessária a fazer passar correntes de opinião, determinando o curso dos acontecimentos, tanto mais quanto mais tiverem acesso aos meios de comunicação social ou influência neles. Determinam a realidade, moldando não só o futuro como o passado, já que com as suas narrativas e intrigas orientam e validam o que é admissível ser considerado facto histórico ou não. Os que hoje mais se insurgem contra a adulteração da História são os que ontem mais contribuíram para a manipulação dos factos históricos, criando o pequeno monstro que temos agora em mãos. Sem autoconsciência não há possibilidade de isenção e independência de pensamento. Quanto mais ardilosas são as técnicas de aparente rigor da informação, mais se revela a manipulação em favor da manutenção das redes de interesse. A ganância das elites que manipulam o pensamento dominante determina o desnorte actual.


De resto a semana decorreu banal. Com um pequeno susto na quinta-feira. E a confirmação de que é muito bom viver perto do trabalho, e trabalhar perto da minha mãe. Deu para lá dar um salto rápido e sossegar pouco depois. A vida cá em casa, depois de um fim-de-semana periclitante, é serena e risonha e faz-me capaz de acreditar em alegrias futuras. Os mais novos são motivo de orgulho e inspiração.


E ontem dei mais uma vez por mim a pensar que começo a despegar daquilo que me desassossega nos últimos tempos. Estava habituada a pegar na trouxa e partir quando queria e quando incomodada pela estupidez alheia. Era-me fácil cortar. Partir. Agora um laivo de maturidade leva-me a perceber que não devo ir embora do meu lugar nem prescindir do que criei e tem valor. Terei é de saber peneirar: estimar quem está por bem e desvalorizar vizinhança mais desagradável e presumida, não dando tempo de antena. Não podemos escolher o que nos rodeia, mas podemos aprender a não nos deixar enredar e perder tempo com o que prejudica e não acrescenta, com o que não tem importância.


Vou tentar nadar amanhã para deixar Domingo completamente livre para a preguiça.


Antes de escrever este postal passei no The Guardian e fiquei saber dos benefícios das vídeo-chamadas para a socialização dos papagaios, da importância de não sobrevalorizar a astrologia determinando o pensamento e acção por sugestão da leitura e interpretação dos astros, e que todos os países da NATO estão de acordo na adesão da Ucrânia, assim que termine a guerra. Nesse dia incerto. Até lá, parece que não dá jeito por implicar conflito nuclear. Esperem aí um pouco, Ucrânia e ucranianos, desculpem lá estarem a ser desfeitos em pedaços, mas é a vida. Valores mais altos se levantam.