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01/09/2024

Intolerância

Escreverei agora sobre a forma insidiosa como se revela a intolerância para lá das manifestações patentes sobre as quais incidem muitos dedos acusadores. Desacreditar as convicções dos outros, menosprezando-as por inconstantes ou fruto da imaginação é uma das suas expressões. Cada um transporta um mundo invisível aos outros. Nos mais observadores e atentos esse é um universo mais amplo e se viverem rodeados de pessoas quadradas - que não pensam sem recurso ao rótulo e à presunção de que inventa ou está errado quem não sente nos estritos termos que conhecem ou estão em voga - a vida torna-se numa caminhada de permanente obstáculo.


Conheço quem considerava o facto de uma criança e adolescente escolher os amigos entre miúdos sem pedigree sinal de vontade de se sentir superior. Não passava pela ideia crítica que a miúda se sentisse muito mais confortável, compreendida e igual nessas amizades. Que fosse muito mais feliz junto dos amigos que escolheu por gostar e que disso fizesse finca-pé, não se deixando corromper por peneiras e preconceitos sem sentido.


Conheço quem considerava que uma mulher só se poderia sentir mal por ter dez ou quinze quilos acima do peso ideal, apesar dessa mulher ter aprendido a desligar das constantes reparos e críticas e de se sentir não só bem como feminina e desejada. Uma vez que tinha aprendido a afastar-se dos complexos de jovem, quando apesar de estar abaixo de peso ideal era objecto de reparos por estar gorda e disso na altura se ter convencido de modo tonto e prejudicial, como tantas raparigas da sua idade. Para quem condena, as mulheres manter-se-ão com a mentalidade de jovens tontas cuja magreza é ideal de beleza e se disserem o contrário estão a mentir e a tentar convencer-se a si próprias e aos outros. Os acusadores não conseguirão nunca aceitar a felicidade numa pessoa que julgam imperfeita.


Conheço quem nunca considerou várias mulheres dignas de serem mães - um estatuto predestinado a pessoas especialmente dotadas, trabalhadoras e bem-sucedidas, saudáveis, com capacidade de sacrifício e vedadas a criaturas inconstantes, trabalhadoras, mas falhadas ou com problemas de saúde. E não é a preocupação com a saúde e felicidade da criança que é valorizada, interessa sim imputar incapacidade à potencial mãe defeituosa. É pensamento espartano. Não percebem que a maternidade não é propriedade e orgulho de virtuosas. Nunca aceitarão que gente imperfeita se possa vir a sentir completa e feliz apesar das dificuldades.


 


Notas.


Alguma coisa deve estar a passar de estranho atenta a quantidade de vezes que usei os termos felicidade e feliz.


O português deste postal está fraquinho, mas não me apetece aprimorar. Não é o essencial.