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22/09/2024

Diário

Há cinco minutos estendia a roupa miúda acabada de lavar. Há dez terminava de ler ao Nuno mais um punhado de páginas a esmiuçar uma daquelas personalidades históricas com pechas de carácter deploráveis na vida privada e pública: traidor, corrupto, dissimulado, maledicente e promiscuo e também defensor dos mais nobres princípios de civilização. É assim o mundo. Tudo menos a preto e branco.


Julgo que por vezes alguns consideram outros incapazes de entender estas nuances da vida, chamando-os puritanos, evitando compreender que muitos dos que recordam as velhacarias dos heróis históricos ou figuras do mundo literário ou artístico não fazem mais do que trazer alguma honestidade ao campo das narrativas históricas. Pulhas não deixam de ser pulhas por ficarem do lado certo da História.


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Hoje dormi bastante de dia uma vez que acordei novamente às seis e meia e tive uma manhã semi-agitada. Cansada e moída por ser mulher, perdão, pessoa que menstrua, dormi um par de horas à tarde e meia hora depois do jantar, que consistiu apenas num pão com ovo estrelado e fatia de queijo.


De manhã fui à Rua do Bolhão, que me recorda sempre os poucos anos que lá ia muito ao Tribunal Criminal sobretudo para a escalas na qualidade de advogada estagiária e para as defesas oficiosas. Não me traz bom sentimento, aquele sítio. Sofri por ali. Naquela fase da vida não era resolvida e não falava do que sentia como hoje em dia, vivia para dentro as vergonhas e inseguranças. Cada vez que um julgamento me corria bem era uma vitória saboreada sobretudo por não sair de lá vexada. E houve os que correram bem e senti que me soube pôr do lado certo da Justiça.


Mas hoje o destino era um pouco mais acima na rua. Há dias falaram-me do Óculos para Todos. Digamos que é um oculista e audiologista low cost. Com página e venda online. Soube da existência através de uma relação profissional que conheceu o projecto do negócio, ou seja, a história de como se concebeu uma empresa com todos os aspectos envolvidos.


Lá fui, tirei a senha e dei uma vista de olhos pelos óculos expostos. Gosto de sensação de poder escolher sem estar sob conselhos e juízos. Pouco depois chamaram a minha senha e calhou-me uma simpática menina que me acompanhou por todas as mesas e escaparates para escolher a armação. A que tenho actualmente é sobre o quadrado e como há ocasiões em que sou influenciada pelas modas, resolvi com atraso – nestas coisas das vagas de gosto popular tudo muda muito rápido – optar por um par de óculos com linhas arredondadas. Entre os que eu escolhia e a menina sugeria experimentei cerca de uma dúzia e trouxemos para a mesa onde ia ser atendida cinco pares. Acabei por escolher uns sugeridos pela funcionária que em todo o período de atendimento mostrou-se sempre educada e sóbria nas sugestões não me constrangendo a aderir ao que não gosto. Curiosamente acabei por preferir uns com reflexos azuis e lilás que nunca na vida imaginei escolher. Pareceram-me a imitar tartaruga como quase todos os outros que experimentei. Daqui a umas semanas exibirei aqui a aquisição – lá ia perder a oportunidade. Quanto a preços não foram nos valores chamariz da publicidade da loja, mas ficaram a metade do preço dos últimos que comprei também numa destas casas que se promovem por ter preços módicos. O mais importante, o ajuste da graduação e a qualidade das lentes foram tidas em conta.


Antes tinha ido à Moutinho Oculista, casa onde sou cliente desde os 12 anos, levantar caríssimas lentes de contacto descartáveis. Usei lentes de contacto entre os 12 e os 42 anos, quando iniciou uma fase em que não produzia lágrima – sobretudo em situações de ansiedade. Entretanto já tenho lágrima, mas acabei por me habituar aos óculos em permanência e só uso lentes de contacto ao fim-de-semana para nadar. Nos muitos anos que usei lentes de contacto em permanência comprava de longa duração por desde sempre ter achado as descartáveis financeiramente descabidas. Lembro-me de em novita ter amigos que me achavam extraterrestre por não aderir à modernidade. Pois hoje soube que continua a haver o produto pelo que da próxima vez que comprar voltarei às de longa duração. Odeio deitar dinheiro ao lixo.


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A minha mãe fez-me companhia nestas vidas e já que estávamos na baixa fomos almoçar juntas. Escolhemos o restaurante Bicho Papão na Rua do Bonjardim. Enquanto lá estivemos só entrou mais um cliente. Presumo que só tenha movimento à semana. Como já aqui contei era o restaurante onde ia almoçar nos tempos do primeiro emprego num banco, no ido ano de 1999. Continua com óptima cozinha e atendimento simpático. Comi um saboroso arroz de marisco, um dos pratos do dia, e trouxe para casa ao Nuno, alérgico a marisco, strogonoff de frango, que lhe deu para almoço e jantar. A minha mãe comeu um bacalhau à Brás que estava com bom aspecto.


De resto, que está a marcar este fim-de-semana? Fiz uma densa retrovisão dos últimos quarenta anos a propósito de uma notícia dramática no círculo próximo – que implica muito sofrimento para uma pessoa a quem quero muito bem. A vida dá mesmo muitas voltas e ainda que os homens e as mulheres perdoem e esqueçam, Deus não dorme. Castiga com ferocidade e desfasamento de tempo tal que me espanta e surpreende. Claro que egocêntrica como sou fiquei a interrogar-me pelos meus eventuais castigos. Tenho esperança que a pancada forte que levei da vida muito cedo, fazendo-me crer aos 33 que tinha chegado ao fim da linha já tenha sido castigo suficiente. E que o facto de quer o Nuno quer eu termos sido penalizados cedo (ele ainda mais severamente) nos permita algum sossego no futuro. O sofrimento por que passamos precocemente permitiu irmos a tempo de reconstruir uma vida com uma perspectiva mais sólida e consistente, reconstruir duas vidas amparadas pela compreensão.


Mais? Para terminar conto só isto: hoje lembrei-me da C., uma vizinha e amiga por um pequeno período da adolescência, e de um episódio passado no Kasbar, um café próximo do liceu onde muito nova costumava passar bastante tempo. A C. era uma rapariga especial com uma visão do mundo um nada distorcida. Um dia estávamos sentadas numa mesa com o café cheio, entra um rapaz conhecido no liceu por ser um dos meninos mais bonitos e desejados. Perguntou-nos se podia sentar. Respondemos que sim. E passei as semanas seguintes a ouvir a C. contar histórias estrambólicas da forma como ele estava derretido e interessadíssimo nela. Deixei-a falar como acontecia com a maioria das amigas e amigos, sobretudo amigas, que gostavam desses enredos amorosos juvenis. E pensava para mim: ele sentou-se na nossa mesa, porque tal como eu é assíduo do café, ao contrário da C., não tem onde se sentar e é habitual fazermos isso. Eu era a pirralha, quer ele quer a C. eram mais velhos, e estava habituada a aturar os grandes enredos que muitos constroem e me parecem tão aborrecidos quanto as séries televisivas e filmes com muita audiência. Dão-me imenso sono. Acresce que tendo crescido com três irmãos rapazes, com muitos mais primos do que primas e tendo toda a vida mais amigos do que amigas o mundo masculino sempre me foi próximo. Sempre me foi difícil compreender grandes conjecturas das minhas amigas e conhecidas sobre o que os homens sentiam por elas ou a maneira como se comportavam. Fui sempre tentando amparar e pôr um pouco de lógica. Quando me diziam, ah, porque ele pensou isto ou fez aquilo porque me detesta ou porque está apaixonado por mim ou porque me trai etc e tal, limitava-me a perguntar: mas já teria almoçado, não estaria como fome e maldisposto?, estaria a dar futebol ou o clube dele ganhou?, estaria envergonhado?, não teria bebido demais?, ele ouviu o que estavas a dizer ou estava atento a alguma palermice dita por um amigo ou a exibir-se para os amigos? Claro que para elas era vista como a que não percebe nada das questões importantes, a ingénua, a distraída. Talvez seja menos distraída nalgumas matérias do que pareço. Continuo aos cinquenta anos a manter-me igual. A não gostar de enredos e intrigas. É que as conjecturas que se fazem sobre o que os outros pensam ou sentem esquecem-se muito comummente de coisas bem mais prosaicas. Mais cedo recordava a C. e lembrava como há mulheres e homens, sobretudo homens, que estão sempre convencidos que há uma mulher (ou várias) interessadíssima neles, cheios de si. E esquecem que as mulheres podem ao observar ou mesmo elogiar distraídas aquelas calças estar a pensar que ficariam melhor no Adónis lá de casa ou noutro Adónis qualquer em quem tropeçaram na rua durante o dia.