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16/09/2024

Águias

Ontem li por aí a lenda da renovação da águia. Em três linhas conta a história de renascimento desta ave de rapina: chegada aos quarenta anos tomaria a difícil e dolorosa decisão de sozinha subir ao alto da montanha e arrancar, para que nascessem de novo, o bico curvo, as unhas moles e as penas pesadas - sinais de envelhecimento. Sem tal resolução morreria precoce. O processo de renovação, que duraria vários meses sem se alimentar, permitiria vivesse mais trinta anos. Esta lenda bebe do mito grego (em rigor, egípcio) da Fénix - representa a imortalidade, o renascer das próprias cinzas -, e não passa o teste do algodão dos ornitólogos que explicam a renovação por ciclos ao longo da vida da águia e não de uma só vez sob pena da ave não sobreviver ao processo de muda.


Daqui quero tirar duas ideias. Se é evidente a explicação dos zoólogos, será de banir do espaço público ou desprezar toda a componente lendária ou mística? Só será aceitável a simbologia clássica ou erudita por ter atravessado séculos como expressão da arte, sendo de desqualificar por contraposição todo o misticismo moderno sem pedigree?


De que vale o saber acumulado das obras de arte que contém referências à mitologia clássica se não se compreendem as manifestações de mito modernas, censurando-as, remetendo-as para o esconso, o ridículo, o obscurantismo? Em regra, por contraposição à sacralização da ciência. Nada de muito grave se a “ciência” vulgarizada e vendida às massas o fosse. Mas ainda é cedo para dizer estas coisas numa sociedade que crê em todas as patranhas pseudo-científicas.


Quando mais nova, também me irritavam as associações primárias da mitologia clássica por exemplo no mundo do estilismo ou dos perfumes. Tudo me parecia leviano (na verdade, continua a parecer). A falta de instrução, de conhecimento das lendas e do misticismo milenares, pode dar coceira a muito boa gente, mas infelizmente a intolerância aos mitos e lendas modernos em vez de dar cadastro dá currículo - dá ser.


Este postal foi despertado pela visualização ontem de uma leitura de baralhos de tarot. Como já aqui contei, gosto de esoterismos, mas entre as bruxarias tinha predilecções e repulsas. Interessam-me a astrologia, a interpretação dos sonhos e o simbolismo, mas torço o nariz ao tarot. Ou melhor, torcia. Nos últimos três meses tenho visto alguns vídeos. Como em todas as matérias, há os malucos por inteiro e os exuberantes charlatães, mas ao mesmo tempo, há uma linguagem que pouco se distingue da psicologia lifestyle que domina de forma inconsciente a mentalidade presente nos meios de comunicação e redes sociais. Interessa-me saber em que mundo vivo, apesar de com esta referência às bruxarias dar o ar de alheada e imbecil. Depois de ver meia-dúzia de bruxos, elegi como sempre faço, alguém que prefiro ouvir. Só ao terceiro ou quarto vídeo soube que era uma transexual, cuja história do processo de mudança de sexo expõe noutros vídeos. Não tive curiosidade em ir ver essa parte que se refere à sua vida e não me diz respeito (o que não impede que um dia me dê para aí). Sob o ponto de vista da linguagem e da capacidade de comunicar é de longe a mais competente. Além disso, é simpática.


A razão para o último parágrafo? Esta: não fosse a taróloga ter falado ontem do processo solitário de renovação dolorosa e no amor maduro e independente entre duas águias – como é óbvio na véspera de Dia dos Namorados não podia faltar a alusão ao amor, a que dá pouco relevo nas suas leituras habituais de baralhos de tarot – e não teria ido ler a história da renovação das águias, nem os biólogos, nem a Fénix. Nada na vida se desaproveita: migalhinhas são pão e a snobeira impede que se viva e conheça o mundo. Por mais que leia sobre Fénix ou o quer que seja, esqueço-me de quase tudo, até depois voltar a ler, e outras ideias ficarem. As camadas que estão para lá do quase tudo sedimentam e fazem-se ideia peculiar das coisas: cada um terá forma diferente de armazenar e processar a informação.


Cada vez a esticar mais a corda. A corda bamba, seguindo no avesso das moralidades com pureza de linhagem, mas também no reverso do politicamente correcto plebeu. Cada vez a enterrar-me mais, escrevendo mais sobre parolices e outros tabus da intelectualidade. Cada dia a mostrar-me mais ignorante. Na expressão em voga: a pôr-me a jeito. Que maçada.