Ao escorrer da ponta dos dedos no teclado. Sem nada de concreto para examinar. Esse mundo de acontecidos passando-te ao lado. Será que consegues apanhar o imaginário fio condutor dos pensamentos que afloraram a tua mioleira nos últimos dias? Vários sem interligação entre si, como uma série de luzes de Natal de cores diferentes.
Azul. Mais cedo no comboio ao pousar as palavras que lias trocaste impressões sobre afinidades. De que são feitas? Por exemplo, do calor e conforto de palavras que ouvias em criança aos teus mais velhos e se mantém nesse cordão umbilical que nunca cortaste. Nos últimos dias viste-as sarapintadas em três livros. Dois lidos, um a continuar. Encontraste um todo genuíno no qual são patentes a diversidade e intensidade entre ternura e beleza e severidade magoada, em cântico educado com arte, a fazer-te compreender a distância entre estes originais e as imitações que, por mais esmeradas, denunciam sempre falta de arte.
Verde. A atracção pela discrição de outrem é letal. Recordas a reacção de aprovação de alguém há uns anos face a um trecho de um romance a vaguear uma amizade que se fazia da discrição e abnegação do elemento feminino da relação. Hoje um escrito no mesmo sentido reavivou-te a memória. Tu própria várias vezes enalteceste esses espíritos superiores que ao invés de imporem a presença, passam pelo mundo para facilitar e embelezar a vida dos outros. Não deixa de ser uma forma de egoísmo, às vezes de distracção, dar como garantido que tal virtude seja desejável. Que dirão com sinceridade aos seus botões os corações dos discretos sobre os elogios que lhes tecem?
Vermelho. De que se faz a confiança? De estar na vida de coração aberto. Talvez do conforto de não ver o outro como objecto de cálculo e a vida como mera transacção de interesses. Da bondade de reconhecer no outro as mesmas faculdades intelectuais e emocionais. Ou semelhantes. Os mesmíssimos: carne e osso, alegrias e padecimentos. Ou parecidos. De acreditar à partida e querer bem ao outro e ao mundo: de acreditar que não procede com interesse egoísta, dissimulado ou mesquinho. Crer no outro não como adversário e não como alguém a quem se pode sacar valias. A confiança faz-se da dádiva de acreditar. Se correr mal, o mal ficará do lado de lá, de quem ofendeu, de quem agiu de má-fé.
Amarelo. Como se cosem os laços apertados de uma família? Como se mantém? Há uns anos alguém recordou-te a importância das casas. Casas grandes que fazem perdurar os elos familiares. Esses pontos de encontro concebidos como referências de memória de várias gerações. Para lá disso, e na falta delas, é imprescindível a generosidade e espírito conciliador de alguns em prol do todo. Os piores inimigos da família são a ambição excessiva e a quezília.