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15/09/2024

Diário

Acordaste às sete e picos. Depois de feito e bebericado o cafezito, ligada a série de luzes e a smooth, tomado o chuveiro e arranjadas ao de leve casa e roupas, foste uns minutinhos para a varanda: dois melros, um a chilrear em resposta aos assobios curtos, agudos e de baixa intensidade do Nuno. Conversaram os dois, o melro muito negro com o bico laranja lá em baixo – dizem que quanto mais laranja mais saudável -, no jardim da casa adjacente da mansarda, ele cá em cima, na varanda e o sol a bater, até que o passarito deixou de saraquitar entre os ramos ralos da árvore grande - continuas sem saber o nome - e o pavimento de tijoleira, escondendo-se numa das japoneiras de camélias vermelho sangue, e perdeste-o de vista. Ainda aproveitaste para invejar o limoeiro pejado de limões, as esparsas rosas amarelas e apreciar a convivência pacífica e vagarosa do cão e gato dos vizinhos, mas fazia-se boa altura para largar os devaneios e começar a azáfama calma de fim-de-semana - sim, contradizem-se as palavras, tal como as ideias, acções e vida. Foste ao Continente levantar dinheiro e comprar pão. Só filas com carrinhos cheios e uma simpática cliente de compras mensais a fazer-te sinal para passar à frente. Na costureira deixaste um par de calças para fazer bainha e tentaste a primeira vez a farmácia. Cheia. Vieste de requitó. Seguiram-se leituras online, poucas, mais smooth, mais atenção à casa. E segunda tentativa de ida à farmácia. Cheia. Almoçaste, sopa de agrião e pão com bife de peru, desatenta ao jornal da tarde. E agora sim na farmácia abasteceste-te de vitaminas, suplementos e químicos para uma temporada.


Apanhaste Uber até São Bento ao encontro da T.. Começaste a tarde com o café e pastel de nata logo ali na Rua das Flores – e a conversa que foi ganhando pernas para subir Vímara Peres e atravessar a ponte cheia de gente a fotografar e a desviar-se do metro. Em total distracção passaram por vós o Jardim do Morro, as multidões que mais tarde ao pôr do sol verias ao longe como se fossem bordados e rendilhados presos nas grades da ponte, nos muros do jardim e da Serra do Pilar, e a Estação de General Torres, e eis-vos no WOW. Belos terraços, muita pedra e telhados ao sol, outros à sombra, como cada percurso de vida e a habitual vista de sonho para o Porto, que fez parte da tua infância e adolescência. O granito, sotaque e descontracção de quem vai deambulando pelo espaço exterior como se num ímpeto pachorrento – ai as contradições, tão boas - de fim-de-semana se levantasse do sofá da sala de estar para pegar no copo em cima do aparador, e a sobriedade do espaço fazem-te sentir a despretensiosa terra que se faz tua casa. Muito recomendável agora em Fevereiro, antes dos meses de maior turismo, que convém ali acorra para rentabilizar os 100 milhões investidos. A T. que conhece bem o espaço por já lá ter estado diversas vezes vai fazendo de cicerone, prosseguindo conversa boa. Não entraste nos museus, hoje não era dia para distrair da treta. Reparas na entrada do The Bridge Collection - uma colecção de 1500 copos de taças que contam a História da Humanidade através do ritual da bebida - o bonito Synchronological Chart of Universal History, de Sebastian Adams.


Entraste no Angel’s Share à hora do chá, hora de abertura, mas apesar do vasto leque de bebidas à escolha – sobretudo vinhos -, tomaste um sumo de laranja. A T. um chocolate quente. Nada contra vinhos, antes pelo contrário, mas fica para outra altura mais propícia. Os nomes estão quase todos em inglês e correspondem, além das alusões à produção de vinícola, a um misto de referências da moda dos vinhos à volta ao mundo e algum regionalismo. Assim, se quisesses, poderias bebericar o chileno-peruano Pisco enquanto tragavas o covilhete de Vila Real. Mas não, pelos teus cálculos terão sido três laranjas. Mania da fruta por fermentar - és uma parola e isso cada vez te diverte mais. O espaço é muito bonito, com vista maravilhosa na melhor mesa – vantagem de primeiras clientes –, o serviço absolutamente impecável. Foram umas horas de treta boa, seguida de mais uma curta andança a pé na Via Rosa Mota para usufruir da vista nocturna. Ficou agendada nova saída para Março, quando a meteorologia induzir a vontade de ir às pechinchas com vista à compra de um vestidinho. Chegada a casa o telemóvel disse-te que tinhas andado os saudáveis 10.000 passos. Fizeste arroz branco, almôndegas e salteaste uma mistura de legumes italiana, jantaste e dormiste antes de vires escrever este diário.


Bem sabes que aqui nas Comezinhas promoves o mais possível Porto e Gaia. É como o antigo anúncio da Matinal: se eu gostar de mim, quem não gostará? Mas na versão: se eu gostar da minha terra, da minha gente, quem não gostará? Talvez dês uma imagem muito positiva, roçando o naïf, mas fazes a promoção sem qualquer necessidade de artifício por gostares mesmo com todos os defeitos e virtudes.


 


Adenda: o meu pai informa que os melros machos têm o bico amarelo vivo, as fêmeas esbranquiçado.


Fui consultar o sábio Google, diz-me que o bico das fêmeas é acastanhado.


Tinha reparado em bicos menos vistosos, mas não saberia definir a cor nem os separava por sexo. Fica assim melhor informação. Sempre a aprender.