E se experimentasse um diário concentrado? Duas sonecas após jantar seguidas de madrugadas em claro. Devo andar a testar a sorte, convencida de ter 20 anos. Daí precisar de repôr os sonos nos devidos horários. Ontem de manhã continuaram as burocracias que não vou esmiuçar, afinal tal afoiteza causa muita confusão. É estranho escrever acerca de aspectos práticos da vida numa linguagem pouco habitual e não enquadrável nos catálogos da praxe.
De tarde mudou o registo para a descontracção. Conforme combinado fui ter com a T. ao Jardim do Morro, lá estivemos na conversa sentadas nos muretes de pedra que delimitam os patamares de relva em forma de anfiteatro virados para o Douro. Aquele jardim é-me conhecido de muitos anos e como muitos na zona do Grande Porto ganhou vida nos últimos tempos. Os jardins públicos voltaram a estar na moda e isso é bom. Pena os rádios além da animação musical oficial. Sempre a atropelar a palavra de uma e outra, ambas com ânimo para dizer de sua livre vontade o que vai na telha e alma, depois de uma horita sentadas a Noroeste, palmilhamos mais uma vez o tabuleiro de cima da ponte D. Luís e seguimos em direcção ao Passeio das Virtudes, invertendo assim a vista para o Douro a Sudoeste. Se no Morro há turistas e parelhas e grupos mais convencionais, nas Virtudes – das quais há algumas alusões e imagens aqui nas Comezinhas - o ambiente é… como direi?, talvez artístico-alternativo. Álcool, grafitis e talvez uns charritos e quejantes – a verdade é que nunca inspecciono essas coisas, mas olhando a marabunta de gente nova que pulula o relvado e os muretes, é bem provável. A funcionar a todo o gás uma mercearia onde fomos buscar as bebidas para continuar a tagarelice. Afinal duas mulheres a falar e banalidades, mas também sensações, convicções, pequenas graças e dores recentes ou antigas traz secura à garganta. Ia com ideia de um inocente refrigerante, mas segundos depois de entrar na mercearia e ter-me afastado já ouvia a T., sempre muito comunicativa e social, entabulando conversa com outros clientes: ouvi uma referência à vodka-limão. Ora, sou sensível e saudosa dessa beberagem pelo que logo me aproximei para amadrinhar a escolha. Apenas uma garrafinha para cada uma que somos meninas atinadas e um saquito de tiras de milho para forrar barrigas com alguma larica. As cápsulas das garrafas são sacadas à saída com o abre-cápsulas pendurado na porta da loja, antes de nos instalarmos junto da gente nova usufruidora nos últimos anos do recanto que há muitos sinto como um hino à cidade. Coisas de quem por lá passou muitas vezes desde sempre e na meninice leu e ouviu referências românticas ao lugar. Seria muito mais profícuo contar os pormenores mais suculentos do teor das prosas, mas a arte da amizade está nisso mesmo: enquadrar os cenários e guardar o essencial em conversas que atravessam décadas, não as expondo. Nisso se distinguem as verdadeiras amizades dos simulacros. E nada disto obsta a que se faça uma ou outra alusão às cumplicidades entre amigos; tudo vai do bom gosto. Já passava das oito da noite quando cada uma se dirigiu à sua paragem de autocarro para regressar a casa.
Nada complicado, tudo ó simples. Por falar nisso, no post de ontem usei a palavra complexificar quando deveria ter utilizado só complicar. Mas lanço mão (esta também deve estar proibida) da retórica para justificar e fazer a minha defesa: o profuso entrelaçar de procedimentos nas funções laborais de instituições e empresas e em toda a relação do cidadão com as ditas é mais do que complicar, é mesmo complexificar. Um dia hei-de voltar ao tema - já aqui abordado nos anos anteriores - da irracionalidade da hiper-regulamentação e hiper-legislação resultante de desfasamento entre a velocidade de progresso tecnológico e a natureza humana – sempre imprevisível e errática.
Mas voltando aos vocábulos e expressões, tema recorrente: cada um de nós é uma ilha em matéria de sensibilidade às palavras. Há ilhas integradas em arquipélagos e ilhas mais isoladas e distantes. Há-as separadas por poucos metros transpostos a nado com meia-dúzia de braçadas e outras que implicam travessias mais custosas e demoradas. E muito para lá do certo e do errado, para lá do bom ou mau português. Em novita tive um namorado que me corrigia quando eu dizia pôr, sugerindo que dissesse colocar. À época considerava tal palavra, como tantas outras, simplesmente pires, mas como ele era bonito estava perdoado. Na altura não me passou pela cabeça explicar-lhe que era mais educado dizer pôr apesar de me tentar inculcar algumas etiquetas pirosas. E hoje em dia uso os dois verbos de modo indiferente sem pôr ou colocar a questão de qual está correcto. Talvez pela mesma razão tenha há um ano ou dois uma pequena colcha cor-de-rosa atravessada nos pés da cama do segundo quarto. De franco mau gosto. Mas foi a dona L. que, descobrindo essa colcha oferta antiga da La Redoute a uso como cobertor em tempo mais fresco, resolveu agradar-me dando um jeitinho pessoal ao quarto. Compreendi que sentia satisfação em embelezar a cama. Deixei ficar as primeiras semanas por consideração e assim acabou por permanecer em definitivo. Hoje o que achava uma fealdade já nem me desgosta, até alegra. E estes são só dois exemplos de como a vida nos leva a mudar, evoluir, amadurecer - apesar de haver quem considere isto regredir -, aproximando o nosso umbigo de mundos que contém matéria de gosto, opinião e natureza muito longe da nossa base de educação.
Afinal não foi assim tão concentrado, o diário. E para quem ia escrever pouco, lá me estendi. É o que dá não ter tento nos dedos.