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10/09/2024

Primeiro de Dezembro

Ora, cá estamos nós na véspera de feriado. Seria uma grande oportunidade para falar do Primeiro de Dezembro, da Restauração, da Monarquia, da República, do Iberismo, e fazer um brilharete, mas na verdade nada cintila nem tem possibilidade de luzir, já que não percebo patavina disso, nem sequer algum dia fui capaz de me decidir, afirmando-me monárquica ou republicana, apesar da franca antipatia pelos fanáticos da segunda. Básica, limito-me a gostar mais do azul talassa, mas a verdade é que um rei possivelmente me iria não só aborrecer, como pior, envergonhar. Isso sim, é uma sensação sofrida, envergonhar-me por terceiros (e não só por mim). Passo a vida nisto, encolhida pelo que vejo e oiço. E atenção que dói à séria. Destoa num mundo de vencedores furgões, de prosápia, de mentirosos, de convencidos de méritos inexistentes, de chico-espertos armados em grandes e talentosos conhecedores e de auto-investidos conselheiros, de desprovidos de autocrítica. Quanta mais prosápia, menos sabem da vida e mais querem instruir os outros na sua visão torpe, mesquinha, presunçosa. Enfim, outra vez o retrato da elite fajuta portuguesa das audiências, que impede sejamos um país digno. Não percamos tempo com isso, deixá-los no visco da sua peçonha e soberba.


Voltando ao Primeiro de Dezembro, talvez a anarquia dissesse melhor com o que me vai na alma. Uma anarquia menos revolucionária, mas ainda assim devota do igualitarismo, esse papão dos iluminados. Faria como há muitos anos, em que conseguia saber de antemão a nota exacta que os professores me dariam nos exames. Não era boa aluna, longe disso, mas tinha perfeita consciência do que sabia e não sabia, e do que era pedido que soubesse. Face a isto, com base em médias ponderadas que sempre rabiscava num papelinho à saída do exame, chegava ao valor da pauta. Raramente me enganei. Bruxa. Se soubesse um pouco de História de Portugal, podia aplicar o modelo. Conhecer as épocas, as fundações e consequências de cada uma, a forma mais ou menos feliz (é isso que me interessa e nada mais) como os portugueses a viveram. Ir buscar à História dos nossos genes, e não renego a diversidade deles, os esteios que nos fazem melhores, mais competentes, mas também mais solidários. Ah e tal, a literatura está cheia de boas intenções e evocações históricas. Já as conhecemos de ginjeira, já as catalogamos, somos supra, ultra conhecedores de todas essas investidas, e aproveitamos para citar três versos do poeta maior, dois períodos daqueloutro cronista, citaremos os ventos que sopravam à época lá de fora, da civilização, e enumeraremos três obras-primas dos grandes mestres. Raios partam os eternos adolescentes que brincam à erudição como se estivessem a masturbar. Então nos últimos trinta anos com a internet é um maná para os eruditos de algibeira. É sacar sabedoria a força toda, é espoliar histórias de vida alheias, é usar tudo quanto está ao alcance para deturpar em proveito próprio ao mesmo tempo que se bate no peito em homenagem ao rigor, ao trabalho e ao mérito próprio, e pelo caminho tirar proveito e destruir umas tantas pessoas que não tolerem as pulhices. Na maior parte dos casos não sabem peva da vida e do que interessa aos portugueses. Não adiantam a ponta de um corno ao sustento das famílias e estão-se a borrifar para a verdadeira educação dos miúdos e graúdos. Apesar de falarem de educação e de livros com profunda solenidade. A preocupação com o analfabetismo antes, agora com a falta de leitura, perturba-lhes o sono. O sono da vaidade. Só pode, tal é a dissimulação, tal o desrespeito que sempre mostram face à populaça, que só interessa para audiência e para instruir no voto dos comparsas de nojeira. Produzem população ignorante para se poderem perpectuar no privilégio de medíocres auto-promovidos a conhecedores de inteiro mérito. Mas não percamos mais tempo com o visco da peçonha e soberba.


O que interessa é que uma média ponderada do que fomos nestes 900 anos talvez nos pudesse servir de farol para futuro menos podre - não digo bom por já ter desistido de acreditar. Descobrir onde errámos, onde acertámos. E não venham com as tretas de que somos óptimos a fazer diagnósticos, porque em Portugal é raro o caso de alguém não querer para si próprio um regime de excepção e é raro o caso, até por este exemplo deplorável que vem da elite fajuta, é raro o caso de assunção de responsabilidades por erros e escolhas erradas – a culpa é sempre do vizinho e o próprio tem sempre razão. Se uns poucos puderem ter voz e guiar-se pela estatística histórica das qualidades dos portugueses, e puderem fazer pedagogia sobre o defeitos que devemos corrigir, talvez a população os possa ouvir e tornar-se mais exigente, deixando-se de cair neste engodo fácil, neste exemplo nacional parasitário, tratante e arrogante, e assim tornar-se ela própria mais séria e exigente consigo própria. Até lá, não vejo razão nenhuma para mudar, se as regras para ascender continuam a ser a trapaça e a aparência - jogo sujo e mundos minúsculos elevados a grandes referências -, salvo raras excepções.