Hoje de manhã retomei a natação depois das piscinas municipais encerradas para obras durante quase todo o Verão. Fui e não vi alteração alguma nas próprias piscinas e balneários, apenas logótipos novos da câmara na recepção. Todavia é possível que tenha havido intervenção não perceptível. Estive uma hora no recinto e nadei 45 minutos na fila dois muito requisitada hoje. Quando entrei estava apenas essa fila livre. Entretanto chegaram três novos nadadores, todos quiseram ir para a dois à vez e até vagar outra. Um luxo já que em muitas ocasiões nadamos aos quatro em cada enfiada. Dei por mim a pensar por que carga de água hoje todos escolheram a minha fila e cheguei à conclusão que devem pensar como eu: procuram quem não faça muito estardalhaço na água e não nade muito bem ao estilo competição. Quando vejo nadadores à séria também escolho outra fileira para não perturbar o ritmo. Vou para outra sossegadita nadar calma e lentamente sem chapinhar.
Já em casa almoçamos salada de alface, tomate, ovo, mexilhão e azeitonas. A acompanhar pão de abóbora e noz. Na cozinha de janela aberta para gozar do jardim dos vizinhos que hoje andam a podar as árvores e a jardinar. A temperatura está excelente, o ar mais ralo, soube bem fazer a pé pouco mais de um quilómetro para a piscina. As noites estão a ficar mais frias para meu agrado; já começo a pensar em voltar a pôr o edredão. Ontem fomos a pé até aos Jardins do Palácio: demoramos 45 minutos com café rápido pelo caminho. Estas são as delícias de viver no centro de uma cidade pequena.
À noite li ao Nuno mais umas entradas do livro Duracell e nos últimos dias tenho pensado que poderia escrever uma ilação conjunta de detalhe da leitura desta História dos Titãs do judeu inglês com a releitura do ano passado do livro da alemã das recensões das cem grandes obras literárias do mundo ocidental – das quais li apenas cerca da quarta parte. A ilação seria um aparte apenas acerca do que é defender a liberdade e a vida civilizada em sociedade e de como as lições instantâneas históricas e literárias podem ser um engodo. Descobrir em cada tempo onde está a tirania, o fanatismo e os absurdos totalitários exige mais sensibilidade do que extraí-la da literalidade e das aparências. Os paralelos entre o puritanismo de Savonarola e as causas identitárias ou entre a sátira e denúncia da intolerância religiosa do já em vida célebre Voltaire e os famosos humoristas actuais ou autores que gostam de se ver como portadores de fina ironia e sátira podem ser tentadores, mas são bastante forçados e enganadores. Demasiado fáceis. E é esta extrapolação fácil da História de muitos iluminados dos conselhos e lições que tantas vezes critico por compreender que para lá da verdade da repetição dos ciclos históricos há sempre algo de novo trazido pelos tempos e esse é o desígnio da evolução e da civilização, por mais destemperos dos momentos de ruptura ou crise e por mais retrocessos a cada passo. Alargando a mais autores e obras, que terei o cuidado de não nomear e exibir em catadupa para não me enervar com esse pindérico hábito disseminado de “novo-sapientismo”, tentarei mais adiante, daqui a semanas ou meses fazer um par de postais sobre o assunto.
E li os poemas do livro de Eugénio de Andrade comprado na tarde de ontem. O homenageado da Feira do Livro deste ano. Poemas de Branco no Branco, de 1984, e Contra a Obscuridade, de 1988. De extrema sensualidade como é timbre desde poeta cujos versos comecei a ler na adolescência e recordo sempre o poema Procuro-te por ser o que mais me encantou à época e por muitos anos procurei. Continuo a ler os meus poetas da meninice e não me arrependo por mais modas orientais, anglo-saxónicas e nórdicas encham os escaparates das livrarias, blogues e redes sociais. Não é que não goste e não os leia, mas sinto-me confortável nas fundações e as minhas são portuguesas. E como é notório não me faz a menor mossa a acusação de ser antiquada ou pouco alinhada com as preferências ideológicas e estéticas do espaço público, menos ainda dos meios elitistas. Procuro tratar-me bem e agradar-me com o que gosto e não com aquilo que os outros querem que aprecie ou é moda gostar. Pena nunca ter conseguido memorizar versos – nem nada na vida, diga-se. Nem sequer do meu bem-amado Ricardo Reis que por tantos anos me disse tanto e hoje está distante. Baralho e toda a vida baralhei até os poemas favoritos, os versos eleitos.
Comprei o livro ontem num alfarrabista de uma Feira do Livro apinhada de gente por estar na moda ler e mostrar livros como quem exibe maquilhagem, ténis de marca, a pulseira Pandora, look gótico ou tatuagem. Dá sainete dizer que se lê e que se lê muito. Perdoe-se a minha maldade. Hoje há lojas de roupa, como a Zara, que vendem livros em língua inglesa, com muita adesão de gente nova. Está na moda ler e dizer que se lê. Como esteve na moda ver séries televisivas em catadupa ou caçar Pokémons. O que não é mau. Por cada grupo de pessoas que vai na onda, uma parte lê de facto os livros que compra e exibe e dessas algumas entendem o que lêem. É o progresso. As editoras estão contentes. O negócio faz-se e há ganho marginal de educação.
Na Feira comprei mais dois livros em falta na colecção Mil Folhas. Tiro certeiro mesmo sem olhar para a estante antes de sair de casa; tentei a sorte e acertei em dois que não possuía. Um de cujo autor já li vários romances desde miúda, outro de uma autora nascida na África do Sul, que desconhecia apesar do Nobel. É engraçado que fazer esta colecção é um pouco como coleccionar cromos, já que o gozo é completá-la, mais do que para ler ou reler. Trouxe-os do mesmo alfarrabista e para dizer a verdade a escolha daquele livreiro em concreto deveu-se ao facto de ser dos poucos que não estava enxameado de gente. Sugeriram-me que comprasse também uma biografia do homenageado na Feira, sorri agradecendo a sugestão, mas passei adiante. Creio já ter lido a história de vida de Eugénio de Andrade um par de vezes e como de costume não fixei quase nada. Fico sempre assombrada com os que sabem imenso da vida dos autores, lêem as suas biografias, estudam os seus traços de personalidade, os pormenores do percurso e as correntes literárias em que se inserem. Enfim, o que se diz ser conhecimento da obra e do autor. Na minha tacanha perspectiva estraçalham a vida e obra dos criadores. Fico sempre com a ideia que não os deixam respirar no que são de tão espartilhados e catalogados pelos julgamentos ávidos de sumo, de intriga. Prefiro lê-los, senti-los e pensar com eles, sem lhes fazer essas maldades. Essas coscuvilhices. Em suma, nunca serei uma connoisseuse. Mas cada um é como cada qual e devo ser menos intransigente. A questão é sempre esta: será que estou a ser intransigente ou apenas a evitar a minha lorpice crónica de confiar na decência alheia? É uma linha muito ténue.
Ainda sobre autores, ontem lá vi uma série deles nas editoras naquela situação humilhante da mesinha com as cadeiras para falar com os leitores. Alguns sozinhos, outros enfastiados como é natural. Estas vidas que obrigam a impingir o que se escreve são tristes. É como as apresentações, fazem-me sempre lembrar os baptizados, casamentos e enterros, a que comparecem uns tantos por obrigação, outros por puro social ou para pôr a má-língua em dia e ter um excite para contar. Todos obrigados aos elogios: pois claro, gostei muito, estava tudo lindo, para a semana vais ao meu. Vida de autor não é fácil a menos que se goste de social e de impingir aos amigos e conhecidos o que se cria, o que a mim me parece um pouco degradante. Mas lá está, cada um é como cada qual. E certo, certo é que os enterros de quem se impinge ao longo da vida e cultiva boas relações têm sempre muito mais audiência. Estou certa que o meu vai ser bem sossegado e quase às moscas. Cada um tem o que merece.
Acerca de livros resta dizer que ando a ponderar desfazer-me dos livros e códigos de Direito. Em 2018 já me desfiz de todos os apontamentos e sebentas do curso e creio que um dia destes os códigos e manuais vão à sua vidinha para me dar espaço.
Hoje sinto o dia como início de ciclo, de ano lectivo, como se estivesse na meninice. Amanhã começo a trabalhar e vai escassear o tempo para me esparramar sobre as letras. Retornará a aceleração. Tomara tenha juízo para não dar demais de mim. É ir com calma, menina. Com calma tudo se faz. Saboreia a vida.