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19/09/2024

A Guerra

O slow rock acompanha-me há vários dias. Jornadas inteiras a ouvir colectâneas de rock mais meloso. Afinal a ideia nesta semana é pacificar e consigo desta forma ainda mais mel do que na smooth fm. Começo logo de manhã no chuveiro, desço em caminhada até ao local de trabalho e passo grande parte do dia com o auricular na orelha direita, mesmo a trabalhar. Estou zen, digamos assim. Desçamos agora às teclas habituais, para mais daqui a pouco irmos ao sumo.


Seja incisivo, foque num só assunto palpitante do momento. Assim rezaria a oração dos consultores do mercado da opinião. Nem um nem outro, continuar nas mexerufadas e não seguir necessariamente os temas da actualidade não é uma questão de marcar a diferença pela diferença, não se traduz na ideia tonta de não seguir carneirada como prova de especial esperteza. Trata-se tão só de cunho e fidelidade ao discurso íntimo e ao modo como ele se processa de facto. Reflectir o processo de pensamento e a sua simplicidade é uma forma de trazer verdade à expressão das ideias. Verdade, não no sentido de serem as correctas, mas sim de serem as sentidas e transmitidas de modo transparente, sem a habitual etiquetagem que comprime as ideias ao catálogo ou às gavetas mentais previamente formatadas e, por isso, provavelmente obtusas. Não tratar sempre o que está em cima da mesa traz não só a vantagem do distanciamento, como a essencial discrição e a serenidade de saber que mais tarde virão a ressurgir como tema de discussão. Em alturas nas quais decidirei se me relembro ou não do que penso. Gosto bastante de ver correr as coisas como se não tivesse opinião sobre elas – é como os obituários. A admiração por quem parte não invalida que nada diga no momento em que o espaço público se enche de declarações – numa de não tô nem aí, como dizem os brasileiros. Tenho sempre pouca vontade de manifestar pesar e gratidão nessas alturas, prefiro fazê-lo noutros tempos: passado e futuro. Aplica-se também a qualquer pessoa que conheça e esteja na ribalta ou em posição privilegiada – o distanciamento, sobretudo nos momentos de brilho, garantem-me a certeza de não as estar a usar para me exibir – há quem confunda com acanhamento ou mesmo inveja, deixá-lo.


Os liberais deixam-me sempre numa posição desconfortável – quase tudo me deixa assim, mas simplifico. Compreendo a estrutura de pensamento, é-me aliás a mais próxima maneira de estar na vida. Sucede que desde muito nova os comportamentos me causaram alguns anticorpos. Falando especificamente de uma das ideias gratas a essa área política, adiro em abstracto às noções de meritocracia e fomento à emancipação do homem. É-me fácil dizer que cada um deve ter aquilo que merece e para o que trabalhou e que o esforço deve ser premiado. Fui educada e cresci nesta mentalidade: cada um deve esforçar-se por ser independente e feliz. Pronto, percebeu-se a ideia. Sucede que desde cedo também verifiquei que o grau de compensação pelo trabalho, competência e seriedade investidos está longe de ser justo. E o enviesamento da lógica da meritocracia que decorre sobretudo da desonestidade como se está na vida é patente no nosso país. Vejo que a tal defesa da ausência de privilégios e a contestação de políticas que visem igualar os desiguais é uma treta num país onde a falta de seriedade é rainha – tal como nas teses contrárias do igualitarismo, diga-se. Resumindo, tal como ontem concluí que existem os reivindicadores profissionais, normalmente promovidos pelos sindicatos de esquerda, que vivem à custa do Estado, hoje concluo pela fórmula ingénua-oportunista dos liberais. É fácil defender a meritocracia quando se tem a faca e o queijo na mão.


Ou seja, volto à tecla de sempre: a questão não está entre liberalismo e socialismo ou direita e esquerda, mas na seriedade e na necessidade de cumprimento da lei. Que lei ou leis seria(m) essa(s)? São outros quinhentos. Adianto que há necessidade imperiosa a bem da sanidade mental que sejam reduzíveis a um núcleo indiscutível ou inquestionável. Porque o mais grave drama dos nossos dias é a nociva e interminável discussão ou polémica (ah, a veneração dos polemistas da treta) sobre tudo e mais alguma coisa, passando a ser impossível governar ou administrar uma empresa, um país, o mundo. Como chegar a uma base consensual que permita a defesa por todos do efectivo respeito pela lei devia ser uma preocupação de quem pensa no país, em vez de tratar de questiúnculas de nomes, cargos, estratégias de marketing político e intriga palaciana e todas essas matérias que ocupam o espírito de quem faz política em Portugal, desde os políticos propriamente ditos, aos que estão nos jornais e comunicação e redes sociais a tecer todos os cordelinhos dos jogos de poder (e a polemizar: a dividir para reinar). Voltando ao que importa: em Portugal não se cumpre a lei e a regra por sistema, o normal é o incumprimento e a correspondente impunidade. Aos que gostam muito de fazer humor com a imagem das coboiadas e dos justiceiros, não se riam tanto e percam um pouco mais de tempo a raciocinar sem recorrer às gavetinhas arrumadinhas do visto e revisto na História e no cinema e pensem um pouco mais na perspectiva da vida corrente presente, não vos fará mal.


Curiosamente tinha escrito numa das notas, isto: bem sei que ao ver além – quanta pretensão, céus – posso deixar escapar o aquém. Isto é, posso incorrer o risco de ser lunática, despegada das questões prosaicas do presente. Afinal, face ao que escrevi no parágrafo anterior poderei não ser eu a lunática. Não sei se isto é mero efeito da retórica ou se cheguei mesmo a uma conclusão (aqui está a tal transparência no pensamento que me deixa vulnerável à critica de todos os flancos mas faço-o sem estratégia apesar de em consciência). Talvez regresse noutro dia a esta questão. De qualquer modo, aproveito uma outra nota para introduzir cimento cola: admiro quem tem a qualidade, que em regra não possuo em ambientes hostis ou onde a javardice reina, de num conjunto desagradável ou divergente conseguir encontrar um ponto de concordância mantendo a comunicação saudável. Resta saber se ainda é possível que esta norma de civilidade sirva para encontrar soluções que imponham o respeito pela lei – um módico de consenso (tendencialmente) inquestionável, isto é, não sujeito ao ruído múltiplo e insano das polémicas e do imparável debate do sexo dos anjos – se é certo que houve momentos na História em que este debate fez sentido aos intelectuais (da Igreja, no caso), para haver progresso ou evolução, é preciso pôr uma pedra sobre as questiúnculas de facção.


E agora regressando à pátria e às tais questões prosaicas de nomes e intriga que me cansam bastante. Para quem souber ler nas entrelinhas ouve-se de novo o ainda tímido clamor do séquito de Passos Coelho. Tudo farão para que volte. Não faço ideia se o próprio possui condições para voltar. Tenho relativa admiração pelo ex-Primeiro Ministro (mas duvido que votasse nele). E como já admiti aprecio Cavaco Silva. Mas uma coisa é certa no meu espírito: o sebastianismo nasceu e ficou-se na adolescência. Não tenho idade para mistificar heróis.


A si que passou os olhos por estas linhas, obrigada por ter lido até ao fim, ou obrigadinha por ter passado na diagonal e vindo directo para o fim. Já sabe, a minha perspectiva é que chegou ao fim a pensar: maluca, quem raio ela pensa que é? Tem a mania que é esperta e nunca se documenta. Só diz banalidades, é o que é.