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25/09/2024

Diário

Hoje para lá do dia de trabalho normal, bastante produtivo, houve recreio com direito a leituras como de costume. Deambulei por informação acerca da Dark Web. Há vinte ou trinta anos talvez me sentisse tentada a usar o link e as instruções de acesso em que tropecei (acessíveis a todos) para ver como será ainda que superficialmente esse submundo de depravação, porém aos cinquenta anos não tive a menor curiosidade ainda que fosse para denunciar.


Ao que li um pequeno espaço dentro do mundo online apenas acessível através de multiplicação e sobreposição de densos túneis de servidores e encriptação de acesso e navegação, onde se movem em liberdade e sob anonimato não só redes de criminosos como cartéis de drogas, grupos de difusão e partilha de crimes sexuais, grupos de hackers que vendem produto de roubo como cartões de crédito de pessoas lesadas e também jornalistas e espiões governamentais. Há replicações em espelho de jornais e outros meios de comunicação social nesse submundo. Resta saber se o fim desta última participação serve para expor as podridões do mundo do crime e dos regimes totalitários ou para participar nelas.


Para desanuviar voltei a ler um artigo académico sobre Hannah Arendt – caiu-me na rifa por ter andado com curiosidades por bandas de gente que estuda. Agrada-me começar a conhecer o pensamento de quem se afastou da tendência do seu tempo para o subjectivismo psicológico, marcando posição com preocupações e cuidados com o mundo real e objectivo. Não me interessa tanto o amor ao mundo de Santo Agostinho de onde partiu, mas coisas mais prosaicas como a demarcação das tradicionais tendências ocidentais através do seu pensamento sem amparos - soa bem, oh se soa. Afastou-se das reflexões de cariz liberal, marxista e conservador - nas quais o político é subordinado à economia, às relações de trabalho. Professou sim a preocupação ou cuidado com um mundo real no qual o homem responsável, para lá de trabalhar para satisfação das necessidades básicas, pudesse ter acção política livre no espaço público plural com instituições e leis que evitassem totalitarismos. No seu pensamento interessa ainda a noção de banalização do mal a propósito do julgamento do nazi Adolf Eichmann, o burocrata que cegamente cumpria ordens. O que valeu à filósofa duras críticas por alegada brandura e relativização do crime e falta de amor ao (seu) povo judeu. Oportunidade para esta eminente judia refutar patriotismos bacocos e distinguir a esfera privada da pública.


Para o jantar fiz massa de macarrão fino riscado com escalopes de vitela – ainda não é desta que adiro ao veganismo - e antes de dormir vou passear em voz alta pela vida de Mozart. E chega de recreio hoje.


Escrito a 24-09-2024.