Em terra e tempo onde predomina gente preconceituosa, tacanha, pouco vivida e com pouco mundo, mulher inteligente e resolvida é sinónimo de lepra. Difamada de todos os vícios pela calada ou de modo enviesado como é próprio de cobardes. O mote: é imperioso descredibilizar mulheres inteligentes e resolvidas para fazer vingar os interesses de homens e mulheres medíocres ambiciosos de aparente sabedoria e experiência de vida e mundividência de antanho.
O mundo como sempre foi. E não, não estou a falar de política nem de eleições.
Mas pensando bem, até bate certo também no caso das mulheres políticas portuguesas inteligentes. Nunca lhes perdoaram nem perdoam a inteligência e a coragem, esse topete rotulado ora de peixeirada, ora de histerismo ora de radicalismo ora de qualquer coisa que as rebaixe e as mantenha subalternizadas em relação à inteligência, recato e bom senso masculino. Mulheres para sobreviverem no espaço público têm de mimetizar esta postura bem comportada de séculos de ascendente masculino. Caso testem os limites absurdos impostos por trogloditas armados em intelectuais sofisticados ou humoristas de trazer por casa só podem ser desequilibradas. Em suma: mulheres não estão autorizadas a serem mulheres. Devem mostrar inteligência andrógena, ser estupidinhas, presumidas ou maledicentes, requisitos de sucesso. Em todo o caso, atraentes por bem comportadinhas, constantes, previsíveis, sem têmpera. replicadoras de clichés e contra-clichés que dão a pica de fictício arrojo e sentido de humor, isto é, submissas à mentalidade dominante com arzito de postiça rebeldia. Simulem apenas às vezes que divergem da opinião dominante, mas mantenham-se devedoras de favores e nas redes de relações interesseiras - a cereja em cima do bolo que vos conferirá credibilidade e a ideia que impera a tolerância democrática e o respeito pelas mulheres no espaço público. Habituem-se à ideia. Ámen ou Alá é grande, vai dar ao mesmo, só difere o grau ou gravidade de agressões a que as verdadeiras insubordinadas estão sujeitas, as tais que vão mudando o mundo para um lugar um pouco melhor.
Há quem só veja as violências se praticadas pela facção ou tribo inimiga ou adversária. Política, militar seja qual for a facção. Há quem só veja as agressões se forem lá ao longe, não vendo as ocorridas debaixo do nariz. Quando não mesmo praticando-as ou compactuando com agressões de camaradas, amigos e ídolos. É a paga que recebem as "heroínas" fora dos holofotes do reconhecimento da bravura masculina tribal. Caladinhas meninas, bajulem-nos, é a vossa sina. Silenciem a verdade. Se querem sobreviver transformem-se em cheerleaders. Cada um(a) tem o que merece. Viva os agressores, esses heróis se forem os nossos, ou biltres se forem inimigos. Abanem os pompons. Isso. Lindas meninas. Eles, os agressores, gostam assim. É só quererem agradar ao lado que escolheram para vos sustentar as audiências e vendas.
Ou isso, ou aprendam a ser gente. A ler os textos até ao fim. A dectectar estupores dissimulados. A dizer menos que lêem muito e a lerem mais. A dizer menos que são muito tolerantes e a serem de facto tolerantes no trato, sem falsidades. A dizer menos que são muito trabalhadores e a serem-no sem esquemas e trafulhices. A dizer que são gente muito bem educada, mas comportarem-se com boçalidade disfarçada de dedinho no ar. A dizer menos que são muito boas pessoas e que defendem a paz no mundo e a sê-lo. A dizer menos que valorizam muito a gratidão e realmente a agradecer. Sei lá, uma variante de ver a vida, de estar no mundo. Mas isto são tretas de destemperada, bem se sabe. Não liguem. Procurem postais de gente com o rótulo de inteligente e conhecedora ou, então, enveredem pelos postais "fofinhos".