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12/06/2024

Mais do que mil e uma noites

Não dirás aleatória, mas ao menos sem regra. É assim que vês a forma como comentas ou deixas de comentar. Como digeres ou deixas de digerir o que lês. Até dizes mais: aquilo que pensas ou deixas de pensar sem chegar a verbalizar em voz alta ou em píxeis. Sem regra, mas com alguma lógica. Talvez o que dizes ou escrevas oscile entre a intuição, o gosto e a razão. E, claro, a emoção.


Há textos tão bem maquinados e escritos que a tua mioleira manda os dedos recolher à sua insignificância. Calem-se, berram os neurónios às falanges. E elas, obedientes, estacam como um cão de caça frente à lebre. Não estragues. Deixa-os respirar. Deixa-os fazer a fotossíntese. São estes os que purificam o ar que respira o Universo. Há outros casos em que os dedos destravam a abanar a cauda mesmo quando deviam ter pudor. Noutros emperram sem necessidade. Há casos em que mais tarde a cabeça desilude-se. Ah, afinal não era tão genial. Pena. Venham mais. Noutros o julgamento de gosto vai variando ao longo dos dias, meses, anos, décadas. Há dias em que o mundo das leituras parece quase perfeito, noutros pura fancaria.


Há gente que pensa bem e escreve ainda melhor, com enorme graça. Não graça pacóvia, mas divina. Não os que justapõem palavras e ideias, mas os que se atrevem a criar, a partir o granito duro das ideias feitas sem cair noutras tidas por novas, mas tão feitas e presumidas quanto as mais caducas. É como se esculpissem a ideia e a palavra para abrir um pórtico para um mundo novo, amplo e luminoso. Atraentes pelo destemor - inusitadas, mas capazes -, pelo romper do curto e cristalizado. Ah, alegria. Sei-te reconhecer e és minha.


E há dedos como os teus e os da maioria que comentam e se orgulham numas ocasiões de pertencerem à raça humana e arrependem noutros momentos da inclinação de gosto manifestada ou apenas sentida dentro. Não é modéstia. Reconheces-te tino para as palavras e ideias. Pura e simplesmente às vezes deparas-te com o talento alheio e ficas um nadinha mais pequena - em vez de zangada com a estreiteza, deixas-te encantar. Ah, caramba. Há por onde crescer, descobres pela enésima vez. E como é bom voltar a sentir a hera sair dos braços, das mãos, dos dedos. Por empréstimo, por inspiração. Ah, caramba, afinal é bom pertencer à raça humana. Mesmo sabendo que mais adiante a hera rompe entre as fissuras da pedra e estraga a estrutura das palavras, das ideias e do coração. Mesmo vivendo de desilusões. Não há alegrias sem desencantos constantes. Não há caminho sem tropeço.


De resto? Pura dialéctica como se discutisses com as letras de cada palavra e ideia – eterna e razoável dificuldade de chegar a conclusão definitiva. Afinal quem lê, tal como quem conta um conto, acrescenta sempre um ponto na dialéctica - na infinita conversa de muito mais do que mil e uma noites.