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17/06/2024

Chá & Conversa

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Na Cimeira para a Paz na Ucrânia, realizada na Suíça, 84 países assinaram a declaração final de apelo à paz e de respeito pelos «princípios da soberania, da independência e da integridade territorial de todos os Estados, incluindo a Ucrânia» e de repudio ao uso de armas nucleares, apelo ao fim dos ataques aos portos civis ucranianos e navios mercantes e à libertação de prisioneiros ucranianos e todos os civis detidos ilegalmente, incluindo crianças.


Entre os signatários: os países da União Europeia, Estados Unidos, Japão, Turquia (sim, a Turquia), Argentina, Iraque e Ruanda. Ausentes: Rússia e China. Os que não assinaram o texto final: Brasil, Índia e África do Sul.


A esmagadora maioria dos chefes de Estado presentes rejeitaram a proposta de rendição apresentada por Vladimir Putin na passada sexta-feira ao prometer ordenar um cessar-fogo na Ucrânia e iniciar negociações de paz se o Governo de Kiev começasse a retirar das regiões anexadas por Moscovo e renunciasse aos planos de adesão à NATO. 


E agora, depois de terminar o vídeo de YouTube com Lang Lang, oiço Yiruma. Baixo bastante o nível do som para tentar conseguir aceder à memória. De que queria falar neste Chá & Conversa? Vou ler de novo o longo postal que escrevi e publiquei na última madrugada, talvez a ponta esteja lá. Quem sabe?


Não, continuo sem conseguir lembrar. Há uma hora demos um salto ao Arrábida Shopping para ir buscar a documentação relativa aos vôos e hotel para Maiorca. Aproveitámos e comprámos uma mala de cabine. Temos viajado sempre apenas com as malas de cabine para evitar perdas de tempo e mais atravancos. Ainda nem sequer vi a meteorologia para averiguar o tempo que se prevê para a semana do S. João. Logo se verá. Praia. Oito dias de praia, soa-me a luxo. Espero que esteja mesmo bom tempo, afinal creio nas últimas semanas ter ouvido qualquer coisa sobre chuvadas fortes para aquelas bandas.


Continuo sem me lembrar do que havia pensado de manhã, mas recordei  outro tema que matutei durante a semana: a forma como a simples bondade pode mudar tudo. O bom-carácter e a simplicidade. Na minha mente duas pessoas. Uma muito próxima, outra no foro profissional. Uma característica comum: segurança em si sem jactância e o gosto genuíno por valer aos outros. Trata-se de dois homens.


No caso da pessoa próxima conto a forma como trata um primo. Esse primo, sendo boa gente, tem um feitio muito especial e desajeitado. É daquele tipo de pessoas que diz tudo quanto é inconveniente e tem dificuldade em entender coisas básicas. Sempre vi a pessoa próxima em causa tratá-lo com enorme amizade, sempre disposto a explicar o que interessa ao primo sem nunca achincalhar, sem nunca se fazer valer da superioridade da sua inteligência. Ao vê-los conversar sempre reparei como não há desdém de quem é muito mais preparado, há genuína vontade em ajudar o primo a conhecer coisas que lhe são estranhas. Claro, reparo também que há um certo orgulho em saber e poder partilhar um mundo mais amplo, mas é essencialmente isso. E isso é bonito.


No caso do conhecido da área profissional a situação é análoga. E aqui faço uma comparação de formas de relacionamento entre colegas. Havendo uma colega que tem dificuldade notória com o inglês – consegue ser pior do que eu, o que é difícil -, o modo como isso foi encarado por quem com ela ia trabalhando faz notar as diferenças de carácter e como a segurança sem jactância faz toda a diferença. Havia quem a gozasse e se fossemos avaliar bem, as pessoas que o faziam possuíam também francas fragilidades na língua inglesa - usavam o básico, mas achavam-se bestiais. Um dia destes admitindo a colega que gostava muito de uma música mas não conseguia sequer entender o título muito menos o nome do autor, era difícil encontrá-la. O colega falou-lhe do Shazam, mas a questão nem é essa. E sim a forma delicada como compreende e aceita que nem todos somos iguais e obrigados a ter facilidade em línguas. Ao vê-lo relacionar-se com outras pessoas é visível essa falta de presunção, o modo como a todos tenta auxiliar e é curioso, sob a perspectiva do exemplo dado, como até será o que melhor inglês tem na empresa onde trabalha.


E essa é a questão. Em muitos casos, são os melhores, os melhores de facto e não os que alardeiam qualidades inexistentes, os das audiências. Os que mais sabem, aqueles que menos preconceito demonstram pelos que têm dificuldades de aprendizagem – ainda que pontuais ou sectoriais. E mais, é notória a forma como são essas pessoas que contribuem para e melhoria, a valorização das pessoas que as rodeiam, seja nas relações pessoais, seja nas profissionais. Talvez assim, pela positiva, compreendam melhor a minha falta de paciência e irritação para os sábios e conselheiros que tudo acham poder ensinar de cima da burra, gostando de demonstrar desprezo por quem não teve as facilidades que tiveram, apesar de muito se gabarem da dedicação ao estudo e trabalho - de muito elogiarem o esforço próprio e o esforço dos amigos que convém. Se fossem tão bons assim, não seriam tão inseguros ao ponto de terem necessidade de achincalhar os outros ainda que sub-repticiamente. Tudo quanto conseguem é fazer figura ridícula e prejudicar quem está a volta, impedindo o seu desenvolvimento pessoal e profissional. Em suma: pessoas que se tomam por supra-sumos, escondendo os defeitos, são verdadeiros parasitas da sociedade.


Tudo isto parece básico, simplório. Mas é destes detalhes insignificantes que parecem coisa de gentinha que se faz o bem-estar e o carácter saudável das relações humanas. Há quem queira voar por altas esferas e se ache o rei ou rainha da criação, o modelo exemplar de correcção humana e social, mas notoriamente falhe nos mais básicos princípios de educação. E gente assim nunca será respeitável por mais que venda a imagem de glória - de perfeição. Por alguma razão o Universo fez-nos imperfeitos.