Acordei cedo, descansámos antes e depois do pequeno-almoço, como se sabe uma actividade de exigente e cansativa responsabilidade. À hora proibida fomos para a apetecível praia. À chegada tivemos a discussão da praxe. Ultrapassado o rápido amuo e o primeiro aquecimento da pele ao sol li em voz alta o livrinho a jeito para entabular as nossas divagações. Logo depois fui para o mar. Nadei meia-hora. Com gozo especial pela temperatura tépida da água turquesa.
Enquanto nadava paralela à praia, como aprendi fazem as pessoas mais velhas com juízo, fui observando o que me rodeava apesar de sem óculos ver bastante mal. Entraram na água duas raparigas novas que pareciam muito afoitas enfrentando o mar em linha recta a nadar um pouco até fora de pé. Logo regressaram. E logo entraram na água três rapazes espanhóis a rondar as meninas a distância cautelosa mas curiosa. O mundo ainda é mundo, pensei. Mais ainda depois de passar o fim-de-semana a ver pares e grupos monotemáticos, isto é, unisexo - de tal modo que festejava com o Nuno de cada vez que via um casal tradicional ou dois rapazes e duas raparigas a entrar ou a sair do quarto no hotel. Reparei também num grupo mais jovem de rapazes a jogar dentro de água com uma bola e as macacadas próprias do divertimento. Havia uma mãe e filha adolescente cúmplices. E um casal brasileiro com um filho de dois ou três anos, ele muito negro, ela muito branca, o pequenino muito mulato e receoso das gigantes ondas de vinte centímetros. Para algumas coisas tenho boa memória e sei como estas ondas podem assustar quando somos dez-réis de gente.
Resumindo, o ecossistema dentro de mar era generoso e respirava harmonia. Foi com a melodia das vozes deste conjunto de banhistas mais próximo, o ambiente sonoro dos estendidos na areia e o arrolhar do mar que nadei e boiei. De quando a quando levantava a cabeça para tentar com dificuldade localizar o Nuno e as nossas toalhas. Quando dei por mim a corrente já me havia afastado um pedaço. Mas estava a ficar bem-disposta e lá me afastei um pouquinho para fora de pé. Portei-me bem e não abusei, regressando logo. Ao voltar ao nosso poiso na areia dei com o Nuno a pé a dobrar a toalha e a pegar nos pertences. Cismado com uma suposta subida do nível da água. Descansei-o, reparei que ele já estava vermelhusco e deitei-me também a gratinar. Uma vez no ponto recolhemos ao hotel, comigo ainda a fazer olhinhos ao mar, como quem promete voltar amanhã para os seus braços. Delícia.
Depois da sandwich comida na varanda e do chuveiro, descansámos hora e meia destas vidas extenuantes e seguimos para a piscina. Entrei directa na água e fui nadando a serpentear os muitos grupos de convívio balnear. Foi como fazer slalom dentro de água. Um bocadinho menos estiloso do que descrição possa fazer parecer. Sequei-me na espreguiçadeira cuja cabeceira roçava um arbusto de flores rosa arroxeado forte, muito comum nos ajardinados das ruas de Maiorca. Seguiu-se mais um chuveiro antes do jantar.
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E para que não restem dúvidas que este blogue já chegou ao grau zero da falta de vergonha até exibo os pratos cheios do jantar no hotel. Que parolice, céus: sair do país para um destino pimba e comer favas guisadas e gelatina de sobremesa. É o cúmulo. Por isso me diverte.