Só temos uma vida. Se guardarmos a vida inteira o que supomos melhor em nós, para melhor oportunidade ou para entes perfeitos que só existem na nossa imaginação ou na altivez de quem busca sempre uma ideia de privilégio ou honraria, acabaremos por não a viver.
Não compreendo bem os que se guardam por desconfiança ou temor dos outros. Os que se acham credores de deferência, sem darem crédito ao comum dos mortais, tratando-os como iguais, por apego ao estabelecido, por preconceito e medo do novo ou desconhecido. Antes a desilusão que a arrogância e frustração.
Bem sei que muitos apesar desta postura recebem inúmeras benesses e tagatés, mas não é incomum cercarem-se de superficialidade. Fico sempre na dúvida se os eternos desconfiados, de apostas únicas no brilho reluzente e seguro do conhecido e reconhecido, guardam algo de bom para dar ou estão vazios, agarrados à moldura do vácuo, ao auto-convencimento de superioridade tantas vezes com pretextos supostamente bem-intencionados e justificações cliché ou de exclusividade.
E bem sei que todos sofremos alguma vez na vida de dúvida ou suspeita acerca dos propósitos e natureza dos outros. Todavia há quem viva desconfiado a vida inteira. Assim envelheça e assim morra, apodrecido. Sem conhecer o mundo autêntico, ainda que muito perore sobre o dito.