Como era a ideia? Se quisesse demonstrar o quanto gosta dele teria de escrever um romance de cordel. O acrescento “de cordel” já não faz parte da dádiva. Uma maçada, isto da inspiração ser servida em pequeníssimas prestações - laivos rápidos a apanhar no ar e desenvolver se houver tempo e talento. Olha que porra: mas afinal que tem isto a ver com ternura, se era sobre amor que iria escrever? Desfeei com o calão e fico triste com isso, mas não mudo. Fidelidade ao pensamento falado de uma vida. Se incluí calão, assim fica selado.
Se quisesse desenhar um afago doce e sentido teria de criar todo um cenário e intriga que disfarçasse a verdade e a diluísse num sem número de páginas de enredo e intelectualizações inúteis. Perder-se-ia o genuíno. Cairia com toda a certeza na frivolidade. E como a odeio. Teria de forjar-me sofisticada, viajada, lida, estudada, reflectida. Até ao ponto de disfarçar tudo isto deixando todas estas supostas qualidades apenas subentendidas para dar ar de desprendida. Bah. Intragável. Enjoativa. Fedorenta.
Teria de simular uma reaproximação às raízes depois de uma vida elegante, rica e experimentada, e pensamento complexo e pejado de ironia produzida. Faria prova de seriedade e credibilidade com o elenco de cada marca de percurso aventuroso. Ah, quão requintada é a aproximação à simplicidade depois de conhecer o mundo. Balelas. E mais balelas. Engodo a encher o olho de quem diz consumir literatura como quem abre um frasco de caviar em busca de prestígio em vez de arte. Em busca do rótulo.
A pretensão de um sem número de páginas de exercícios de auto-gratificação e busca de reconhecimento, para quê? Se o intuito primeiro da obra seria tão só mostrar que aquela carícia meiga está carregada de amor. Para quê centenas de páginas a disfarçar o indesmentível? O vagar é engenhoso e o talento desperdiçado em frivolidade só serve para citações consoladoras de quem gosta de brincar à mentira. À ilusão. À ficção - o consolo dos infelizes. A verdade é perigosa, cabe numa curta costura feita a cordel. Puxa-se o baraço e tudo se desfaz em realidade pirosa até à morte. Não dá boa-reputação, anda por aí aos caídos.