Não há especiais novidades. A sala é a mesma, os ritmos são os mesmos, a tranquilidade da noite de fim-de-semana também. Há assuntos pendentes no cantinho da memória recente e do futuro próximo do cérebro que aborrecem, mas tenho-os afastado do espírito para não me estragarem os dias. Se este texto não ficar comprido demais, conto mais adiante. Para já relato que escrevo quase às escuras e reparo que não olho para o teclado. Aqueles que se intrigam: como passa o Nuno horas ao computador e como toca piano, teclado etc? Do mesmo modo, foi ganhando prática. Se repararem no vosso teclado o éfe e o jóta estão marcados, assim como o cinco no teclado numérico, para simplificar a vida a quem não vê.
Não se vê daí mas interrompi vinte minutos este importante escrito para devanear com a moradia da Senhora do Porto no site imobiliário – o anúncio ainda está activo. Enche-me o peito de contentamento e esvazia-o logo de seguida face à constatação de ser muito pouco provável que venha a ser nossa. A patetice de não falar nos sonhos em voz alta para não azarar parece-me tonta, mas bem sabemos que o campo das probabilidades arruína quase tudo quanto idealizamos. Em novita perdi muitas horas a pensar nisso. Em como pensar nos desejos e projectá-los em pensamento subtraía a possibilidade de os concretizar. Mais velha entendi que não é exactamente assim. É próximo. Ou não os vivemos de todo ou vivemos tardiamente e de uma forma tão arrevesada que já é difícil reconhecermos os contornos do que idealizámos tanto tempo antes. Também já me aconteceu concretizar quase ipsis verbis o projectado e asseguro que a sensação não é confortável pela consciência nos responsabilizar por espécie de poder sobrenatural de manipulação – não é agradável a menos que se seja um desaustinado ganancioso sem escrúpulos. O que vale é que mais tarde sossegámos e percebemos que não fizemos mal algum, demos apenas um pequeníssimo passo de progresso imperceptível aos olhos da maioria, mas notado por nós e mais do que merecido. Mais, compreendemos que levará muito tempo até conseguirmos (se é que vai acontecer) outro pequeno avanço. É a lei da vida para quem a atravessa com erros e tropeções, mas sem tramóias e espalhafato.
Entretanto de novo não se nota daí, mas fiz outro grande intervalo neste texto. Há pouco foram vinte minutos, agora foi talvez hora e meia. Desbocada narro tudo sem ter previsto que o viria a fazer. A minha intenção inicial era devanear nas palavras e não prender-me ao momento que ainda desconhecia. Enfim, mais uma vez as coisas saem ao sabor do instante, sem o esforço que se diz dar credibilidade aquilo que se cria. Se o texto não ficar longo demais, gostava de falar das mulheres que falam do comezinho e do paternalismo conservador masculino. Mais adiante direi mais qualquer coisa. Cerejas, são como as cerejas.
Então, ia contar o que fiz nesta hora e meia em que levantei os dedos do teclado do portátil, aqui nesta sala ao lusco-fusco. Antes de tudo devaneei, que é o que mais faço quando não tenho nenhuma tarefa premente a tratar. Fiz umas leituras online e senti a máquina de lavar parar. Fui estender a roupa. Aliás, antes disso apanhei a que estava no estendal, toda branca. Máquina feita ontem com roupa de cama e de mesa cor da cal – coisa rara. Tentei encomendar online um lençol branco – o Ritz dá-me cabo dos lençóis de baixo nas brincadeiras de manhã –, mas optei por voltar a tentar depois da semana de férias, não vão demorar a entregar e não estarmos em casa. Em seguida entendi a roupa miúda da semana. E enxaguei e torci a blusa branca bordada a cores que tinha numa bacia com água e Soflan. Associo sempre as bacias a trabalho e por isso é muito raro usá-las – uso Soflan poucas vezes ao ano por isso poucas peças de vestuário alvas. Infelizmente, porque sempre gostei da leveza da discrição que todas as cores reunidas numa só. Lá está o mistério para lá da evidência. O invisível. Só não tenho pachorra para o trabalho exigente que dá a blusa branca.
Fui pendurá-la no pequeno estendal da varanda do quarto com cuidado para as folhas do jasmim não tocarem no tecido e tingi-lo de verde. Ao abrir a janela o Nuno acordou da soneca bem-disposto. Muito bem-disposto. E não pudemos adiar para mais tarde uma troca de impressões – neste momento em que estou a escrever cheira intensamente ao manjerico que está nas minhas costas, em cima do aparador. Aprofundámos com doçura e ganas tópicos de cumplicidade antiga, mas sempre novos. Vá-se lá saber como conseguimos ao fim de tantos anos arranjar sempre humor para abordagens diferentes. Sempre não. A verdade manda dizer que nem sempre, mas isso também valoriza cada novo momento de amor. Até narro um pormenor. A lata, a lata. Quando fui pendurar a blusa branca, ia a comer um mini gelado – prémio que me dou por tratar das lides caseiras; não vou por menos. Ora, quando vi o Nuno contente, tive de ir pousar o mini magnum no congelador. Só retomei as trincas no chocolate estaladiço quando me sentei de novo aqui a escrever, depois do merecido chuveiro a dois – uma instituição nesta casa. Aliás, em todas as casas e demais poisos por onde passámos desde há 24 anos.
Entretanto, depois duma dura separação de vinte minutos enquanto escrevi os últimos parágrafos, chama-me para me dizer que enviou uma música por Skype: La prima luce, de Yanni. Não gostei muito, talvez por não estar para aí virada [mais tarde, de manhã, ouvi novamente e já gostei muito, o que sentimos e o aquilo de que gostamos pode variar muito ao longo do dia, dos dias: nesta composição podemos contar com alegria, fé, esperança]. Apetece-me voltar a ligar smooth, isso sim. Aproveitei e servi dois cálices de vinho do Porto que cada um bebeu na divisão da casa ocupada por cada uma das nossas duas solidões desejadas. A felicidade também é isto: espaço. Liberdade.
E claro: nem tudo são flores, nem tudo é bom entendimento, contentamento e leveza. Há desencontros, bulhas. Há egoísmos, deslealdades involuntárias e vontades traiçoeiras inelutáveis. Porque corações e cabeças nunca têm donos. Mas sempre admitidas e subentendidas ou conversadas. Porque a honestidade da amizade que nos une é um colosso face à pequenez das tentações mundanas a que todos estamos sujeitos. Imagino que aos cuscos, que valorizam tudo quanto menos tem importância, conviria saber se as deslealdades referidas são reais ou fictícias. O que interessa isso?, se o que está em jogo é o que cada um sente. Tão só. Há dúvida. E como seria outra vida? E como seria se me deixasse levar por outros apetites? Pelos devaneios mais insistentes? Sempre acabo por afastá-los não por uma razão moral, de bem e mal, mas pela razão propriamente dita. Seria estúpido, tão só. Só me prejudicaria, nada mais. Além de magoar quem mais admiro e gosto. Sou essencialmente feliz com a vida que levo, Para quê inventar? Há momentos maus?, há. E há também cansaço, falta de paciência. Quase sempre momentânea. Facilmente se recompõe a vontade de ouvir, de compartilhar o tempo. De viver a dois. Para sempre? Isso é tempo demais. É ir andando e vivendo.
O Nuno passou por aqui e li-lhe o que escrevi. E agora que o post vai verdadeiramente comprido, cumpre-me desmentir-me e trazer à baila os dois assuntos que acima prometi caso o texto não ficasse demasiado grande. Gosto de me desmentir, gosto de cumprir os requisitos para não ser levada a sério pelos quadrados que vêem o mundo a régua e esquadro.
O primeiro tema. O tal que me aborrece. É possível que mais uma vez fique entalada entre a desresponsabilização de duas seguradoras e uma empresa de condomínio por causa da definição do que é parte comum no apartamento onde vivo. Fazer valer a razão, a lei, poderá implicar uma acção judicial que naturalmente não vou interpor atento os valores em causa. E é assim que tudo funciona a favor dos desonestos neste país. Sabendo que quem tem razão não vai fazer valer o seu direito porque perderia dinheiro (e saúde) na acção, os trafulhas fazem o que querem. E repare-se que não se trata de grandes malfeitores, é simplesmente a forma como o “sistema” está montado. Há uma obra a fazer. A seguradora do condómino vem e diz: não pagamos porque isto é parte comum. A empresa do condomínio que primeiro havia dito “tudo bem, mais tarde fazemos a obra”, agora face à pressão do boçal do engenheiro mestre-de-obras, diz: não, isto é da responsabilidade do condómino. Resta-me barafustar. Adiante.
Segundo assunto. As mulheres que falam do comezinho e o paternalismo dos homens conservadores. Há uns tempos, já depois de ter este blogue há pelo menos dois ou três anos, ouvi um homem conservador elogiar uma obra de ficção de uma mulher que falava do seu dia-a-dia e dos aspectos mais comezinhos da vida, transformando-os em arte. Vi esse mesmo homem há menos tempo referir-se a uma política dizendo que havia ali muito trabalho de preparação a fazer porque era inexperiente. Estamos a falar de política internacional e de uma mulher de sessenta anos, que se estreou a trabalhar no mundo político aos 26 anos, começou a exercer um cargo público para o qual foi eleita pela primeira vez aos quarenta e desde aí tem cargos políticos. Porque me lembrei disto agora? Por ser recorrente este tipo de reparo às mulheres. Nunca estão preparadas senão para o comezinho. Ah, tão engraçadinhas que elas são, tão femininas e apetecíveis a tratar da casa. Ou a fazer de rainhas e princesas – um dos papéis mais duros, diga-se. Ou o papel de heroínas. Mas atenção: de acólitas. Essa é a condição. Em matéria de ajuda humanitária, então, é uma questão de vocação inata. Ah, aí é o seu habitat natural, agora política e liderança é para homens experimentados – mesmo quando não tenham experiência nem ponta talento ou valor. E andamos nisto há séculos. Repare-se que não falo de um burro, pelo contrário, considero a pessoa em causa. Mas é o tal costumeiro pezito a fugir para o machismo. Sempre muito disfarçado, muito caridoso, de quem gosta e aposta muito nas mulheres inofensivas.
Deixo só uma nota final para explicar a razão para não nomear figuras acerca de quem falo. Creio já ter tentado antes, a ver se desta explico cabalmente. Vivemos num mundo onde todos sabem tudo, todos têm opinião sobre o mais ínfimo pormenor da vida alheia. Quase todos desenrolam novelos de factos sobre cada situação analisada, acumulando camadas sucessivas de julgamentos prévios acerca de cada detalhe de vida das pessoas e das circunstâncias. Cada pormenor é um factor de adesão a uma falange de argumentos. Ao não identificar as pessoas trato das ideias em vez de me debruçar sobre as pessoas. Recusando-me entrar nesse jogo absurdo de sapiência e de argumentação desenfreada sobre o sexo dos anjos. Curiosamente, a esta fuga consciente da intriga há quem chame conversa de café, privilegiando e enaltecendo a questiúncula minuciosa – a que chama rigor dos factos. Eis uma das mais comuns distorções da realidade do nosso tempo.
E eis que o Nuno entra no lusco-fusco da sala com mais duas músicas: I'd Love To Change The World, dos Ten Years After e o Bitch de Meredith Brooks. Garanto que não pedi nada. Ele é que achou vir a propósito. E assim fecho o postal.