De manhã preguicei um pouco e trabalhei au ralenti.
Ao início da tarde era vez de consulta; esperei cerca de uma hora e tive tantos elogios da médica que até fiquei encavacada. Levava semi-memorizados quatro pontos entre queixas e factos a relatar. Consegui não me esquecer de nenhum, o que não costuma acontecer. É engraçado como vou duas ou três vezes por ano à médica do juízo (ou da falta dele) para ela me dizer invariavelmente que tenho muito mais tino do que julgo. Vou gabar-me, contando: além de dizer que confiava em pleno na minha gestão do tratamento, chamou-me corajosa. Face aos meus relatos de alterações de sintomas nos últimos anos, acrescentou que a mudança a que me sujeitei há dois anos e meio com o bypass gástrico costuma trazer muitas alterações a nível psicológico, com mudanças profundas na vida dos pacientes, pelo que até lidei muito bem com tudo. Babei, confesso. Tanto que fui lanchar sozinha para festejar enquanto telefonei ao Nuno e à minha mãe a contar-lhes os elogios recebidos; podia esperar por contar aqui a mim própria e a todos, afinal leriam na mesma. Espalha-brasas, como o do golo, é o que é.
Regressei ao trabalho. Fiz o que tinha a fazer. Ao fim do dia saí e fui ao supermercado comprar os saquinhos de higiene do gato, que uso para deitar no lixo depois de tratar da areia. Vim para casa. Relaxei dez minutos e saí logo a seguir para ir à farmácia comprar não conto o quê. Voltei para casa, preparei a costumeira salada de alface, cenoura, tomate, ovo cozido, mozzarela, azeitonas e noz, temperei como sempre com sal, azeite e vinagre balsâmico (o que tenho agora é creme, mas gosto muito mais do trivial líquido). Levantei-me a meio do prato porque estava a morrer de sono. Adormeci no sofá. Meia-hora depois acordei, comi o resto do prato [depois de reler o post reparei que omiti o facto de antes de ir à farmácia ter comido um bolo, o que justifica não conseguir ingerir o prato inteiro do jantar e também o ganho de peso dos últimos oito meses].
Passei a ferro as peças de vestuário que estavam no estendal. Coisa rara. Passo a ferro francamente mal peças pontuais duas ou três vezes ao ano, sempre nestas situações de excepção. Adiantei as duas malas de cabine - a rebentar pelas costuras; nada chique. Amanhã terei só de pôr o que estando a uso não pode ir já para dentro. Toda a vida fui a que não ligava peva a possíveis imprevistos; relaxada, pensava sempre: depois logo se vê. Nos últimos anos, com a velhice precoce, fico ansiosa se não preparar tudo com antecedência.
Comi uma laranja do Algarve, liguei aparelhagem na sala, desliguei as luzes todas da casa, à excepção do globo e do pequeno candeeiro de foco aqui da mesa do computador, fiz um café, trouxe-o comigo e sentei-me no intuito de escrever sobre ternura - qualquer coisa que desenvolva a ideia difusa que preenchia o pensamento ainda meio sonhado ao acordar há duas horas, após dormir a tal meia-hora no sofá a meio do jantar. Às tantas com todo este relato já não terei tempo para a ternura. Vida de mulher.
Ah, importante: encontrei a peça de vestuário perdida e a pequena mochila também.