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09/06/2024

Fim-de-semanário

Na sexta-feira ao fim do dia estava bem-disposta. Chegava ao fim mais uma semana cansativa com difíceis após-almoços. Ainda não ando a dormir o suficiente à noite por acordar demasiado cedo e continuo com uma quebra anormal após a hora de almoço. Passei a semana a dormir mal chegava a casa, antes mesmo do jantar. Uma horinha para repor o cansaço. Acontecia-me o mesmo há vinte e muitos anos no tempo dos primeiros empregos. Não aguentar de tanto sono e vergar.


Que que é isso nos interessa? Pensam alguns. Óptimo, não leiam. Interessa a mim. Assim como me interessa o bem-estar das pessoas a quem quero bem. Não considero família nem verdadeiro amigo quem não me preocupa. Ah, mas isto é um blogue, não a sala de estar lá de casa onde se confessam estas intimidades à família e amigos. Esta foi durante muitos anos a minha forma de ver o mundo e detestava excessos de intimidade e exposição. Em rigor, ainda detesto. Mas odeio mais insensibilidade e as faltas de tempo para o essencial e o fundamental são as pessoas e o seu bem-estar.


Por isso perdi a paciência em definitivo para pessoas que se dizem amigas mas estão sempre muito ocupadas, supostamente muito focadas nas responsabilidades e no trabalho e por isso sem tempo para os outros, ou alegadamente muito independentes, mas na verdade desinteressadas dos outros que vêem como instrumentos apenas a usar quando convenientes. Uma coisa é termos as nossas obrigações, os nossos interesses e prosseguir os nossos objectivos. Outra, é estarmo-nos a marimbar para os outros, ao mesmo tempo que procuramos ser apajados. Se perderem algum tempo a observar essas pessoas vão perceber que elas têm tempo para tudo o que querem menos para aquilo que não lhes dá lucro ou outro benefício. Conheço de ginjeira gente assim desde há muitos anos. E para elas uma palavra: distância. Só nos estragam a vida. E na impossibilidade de distância, indiferença para as suas mentiras e esquemas. Seria uma estupidez dar trela a gente que não nos quer bem. Não sou grande fã das esfregas da auto-estima, mas há mínimos de amor-próprio.


Talvez por isso para as relações próximas sempre procurei gente educada e que fosse atenta à família e amigos, não por exibição mas por vontade de cuidar deles. Não gosto da lei da selva, muito menos nos laços familiares e relações de amizade frouxos ou onde vale tudo menos tirar olhos: interesses, falsidade, desavenças, mentiras, enganos. Xô. Estou longe de ser pura, fiz muitas asneiras e posso enganar-me por algum tempo, é a lei da vida, mas tudo o que não presta vai à vida e ficam os tesouros.


Vai daí gasto tempo por aqui com as questões do bem-estar de quem estimo e de mim própria. O meu objectivo nas Comezinhas continua a ser o do conforto da sã convivência à volta de uma pequena camilha. Uma estucha, já se sabe. Uma sensaboria. Faltam por cá desses mil temas que explodem a toda a hora do nada e que apesar de se reduzirem ao nada, excitam imenso as massas: o enredo palpitante de uma série ou filme empolgante, a teoria acerca de mais um livro do escaparate da moda ou do amigo de conveniência. Faltam as picardias de futebol ou de política, a opinião a favor ou contra uma causa fracturante para a audiência, o elogio interessado ou a maledicência acerca de uma figura pública em concreto. Sei lá, qualquer coisa verdadeiramente importante. Afinal que interesse há-de ter essa coisa menor da tranquilidade e paz de espírito de cada um de nós? Que é que isso interessa para pessoas iluminadas e cheias de interesses relevantes, responsabilidades e certezas? Para vedetas, aspirantes a vedetas e os seus pajens.


Se ao menos ainda pudéssemos catalogar as preocupações, pondo-lhes a etiqueta de distúrbios com um nome qualquer em voga na medicina apesar das teses que sobre elas se elaboram estarem mais do que caducas. Ou então se ao menos pusesse aqui amiúde uma frase politicamente correcta e amorfa para dar o ar de preocupada com o destino do mundo. Afinal para quê ouvir o que as pessoas sentem e pensam genuinamente se é muito mais fácil aderir aos catálogos, aos lugares-comuns, às picardias. Ouvir e ler o que as pessoas sentem e pensam de facto, isso não, é íntimo. O que interessa é rodear o assunto com frases e ideias feitas e ironias insípidas. Falar com verdade não. Vivam as aparências. Viva a sofisticação fajuta. O que se sente e pensa genuinamente é para deixar para os próximos, os tais com quem nem sequer se conversa porque se está de olhos postos nos ecrãs a saltitar de excitação em excitação.


Diverte-me sempre muito ver alguém que diz gostar muito de um amigo ou amar a cara-metade mostrar-se perfeitamente indiferente ao seu bem-estar. É o que se chama não ter vergonha. Os mesmos que são capazes depois de vir com teorias acerca de narcisismo, egocentrismo e manipulação dos outros. É um drama dos tempos modernos. Todos têm acesso aos conceitos e acham que podem brincar com eles a bel-prazer distorcendo a verdade, o problema é que esta tem tendência a vir à superfície, apesar de às vezes tarde demais.


De resto neste fim-de-semana o que fiz? Hoje fui votar, já contei que demorámos quarenta minutos. Não vou perder mais tempo com o assunto. Apenas acrescentar que fomos e viemos a pé. Valeu o passeio. Não estou nada confiante num bom resultado para Portugal nestas eleições europeias.


Ontem recebemos cá em casa um amigo, conhecido aqui na SapoBlogs. Almoço e tarde muito agradáveis com uma pessoa educada e conversadora que nos encantou. Reinou a boa-disposição. É o segundo bloguer desta plataforma que conheço. A ver se no Outono, ou na Primavera do próximo ano, vamos a Beja. Gostava de conhecer uma certa alentejana com quem discuto muito. Não faço ideia é se ela tem pachorra para me aturar. Isto é que é topete.