Há dias estranhos, de muita dispersão. Hoje foi assim: a manhã cheia de trabalho e de pequenos incidentes que aborrecem. No fim almoço uma conversa imobiliária que, ao contrário do costume, me deixou muito hesitante. Sinto-me como uma tola em cima da ponte e estou na expectativa que o destino resolva o dilema por si mesmo. Tarde de trabalho atrapalhada: cada vez que começava uma tarefa era surpreendida com um contacto que me desviava para outro assunto. É daqueles dias em que tendo a sensação de nada de consequente ter feito, muito aconteceu. Nem cabeça tive para arranjar tema para um postal.
Vi o debate de hoje à noite entre João Oliveira e Rui Rio. Jerónimo de Sousa e o PCP estiveram bem representados.
Divirjo do líder do PSD na intransigência de não fazer pontes entre as propostas do PCP e as medidas traçadas pelo PSD – infelizmente Rio considera o Bloco de Esquerda mais tragável. Faz mal, revela ir pelo caminho mais apelativo e conhecer mal o país.
Isto à parte da táctica normal de demarcação de territórios (ideológicos) imposta pela canga da imagem nestes tipo de debates políticos. Mas lá que assusta o namoro completo com a IL e a rejeição total do que seria aproveitável das propostas do PCP, assusta.
Não se trata de encarar os recursos financeiros do Estado como a árvore das patacas, trata-se outrossim de medida a medida usar as patacas num justo equilíbrio entre o incentivo à produtividade e a redistribuição das vantagens pelos agentes que a promovem - e que em nada prejudica a economia de mercado, pelo contrário, favorece-a tornando-a mais sã. Não me canso de dizer que beneficiar as empresas sem contrapartidas para os trabalhadores, continuará a enviesar a economia e a penalizar uma das partes (a base) que cria riqueza: os trabalhadores. Já agora seria o momento de se largar a bengala enganosa da referência aos empresários como os “criadores de riqueza”, quando muito “co-criadores”. Tal como me espanta que se continue a usar a obsoleta expressão (resquício feudal) “dar emprego”: nada se dá, troca-se pelo esforço e empenho humano de quem trabalha.
Duas sombras mantêm o país refém de estigmas que perderam o sentido. Se é verdade que durante 40 anos se injuriou sem fundamento de fascista qualquer pessoa que não fosse de esquerda, também é verdade que o medo do bicho papão comunismo impede muitos à direita de analisar com clareza, objectividade e justiça algumas das propostas vindas da esquerda.