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01/01/2022

Assim andam os dias

Susceptível aos suspiros da vida, aos ais e uis de quem considerando ouves e lês, às mais leves expressões de ser daqueles com quem convives. Não é que não seja normal, sempre foste permeável, mas sentes-te ainda mais sensível às manifestações e flutuações de ânimo alheias, deixando inelutavelmente que te abalem. Querias-te de espinha direita, coluna teimosa e consistente naquilo em que acreditas e achas desejar, mas dás por ti a ondular em constância, sempre a perder o pé e a vir a tona. Ida na corrente ora bóias ora esbracejas levemente para voltar às certezas do que tinhas por autêntico – céus, o teu mundo há 10 ou 5 anos era tão perfeito, apesar de duro tudo encaixava, tudo fazia sentido -, mas a verdade do que pensas e sentes ela própria mexe-se como bolhas de petróleo nas águas onde te perdes. Alegras-te por uma tarde, entristeces numa noite ou tudo e o contrário: empolgas-te ao anoitecer, acordas derrotada ou animas-te com os primeiros raios da manhã para as forças se esvaírem ao longo do dia, enquanto a vida quotidiana corre sem visíveis mazelas. Nada é perfeito, nada é bem. Ou tudo é perfeito por instantes estanques logo desfeito à primeira dose de realidade. Dás por ti nesses redemoinhos de emoções emaranhadas nas razões. Nada é límpido, nada é certo, nada é direito. E o cúmulo é que sabes que manda a vontade que é tua e não dominas e a razão que te prende por fios apesar tudo mais resistentes do que supunhas. Esta és tu, para lá da aparência de estar tudo calmo e certo.