As eleições não se deram ainda, nem tivemos tempo para descansar dos discursos inflamados contra o clientelismo e nepotismo socialista - da deriva radical de esquerda, do malabarismo e do facilitismo. Mas mesmo antes do PSD ganhar eleições já se adivinham as próximas excitações. As fúrias contra o autoritarismo e falta de erudição do próximo Primeiro-Ministro. A este propósito diverti-me especialmente com a demarcação do “nazizinho” por parte de António Costa e de toda a turba bem pensante nacional. Não passará um ano sem que estejam todos a fazer as vezes de Rosa Mota. Tivessem noção das muitas almas que votarão em Rui Rio habituadas a apelidá-lo carinhosamente de "ditadorzito" e perceberiam o ridículo de não compreender os políticos como homens e mulheres integrais – nas suas virtudes e defeitos. Não há esse uso por cá, onde no discurso a maioria dos comentadores se assume como um ser de irredutível inteligência e impoluta honorabilidade. Só não se dizem moralmente imaculados por estar fora de moda, senão até aí chegariam. É reparar como jamais põem em causa os sacrossantos princípios do Estado de Direito, da Democracia e da Liberdade de Expressão. Como sempre respeitam com louvável tolerância a livre opinião de todos ainda que diametralmente oposta. Esquecem-se é de reconhecer como driblam através da argumentação qualquer noção de verdade ou dignidade, distorcendo a análise dos factos conforme os interesses e corrente do momento ou da tribo que querem defender. Dissimulam o egoísmo, o fingimento e a ambição desmedida embrulhando-os em doce e atraente retórica cada dia mais polida e democrática.
À semelhança dos tempos do jornal O Independente nos anos 80/90 – que li religiosamente e com o qual muito aprendi: o mundo não é a preto e branco -, muito em breve o que prevalecerá no discurso da elite de fancaria – quanto mais sofisticada quer parecer mais lhe foge o pé para o tamanco - é a sobranceria e o desdém social pela falta de cultura democrática e erudição dos próximos governantes e casos e casinhos de descredibilização.
Discutir a necessidade de introduzir em Portugal módicos de respeito pela lei, fazer correr a mensagem genérica – e não dirigida apenas aos adversários - de que ser cumpridor não é ser estúpido, quadrado ou ingénuo e que o cumprimento das obrigações é o caminho para se conseguir desenvolver e civilizar o país e diminuir as desigualdades sociais, é uma ideia estapafúrdia para quem gosta mesmo é da chicana política e para quem esta conversa é coisa de falsa puritana. Apelar à correspondência entre aquilo que se exige do Estado ou dos outros e aquilo que se oferece não gera popularidade, logo não ocorre aos comentadores e intelectuais da nação. Tal como não está na moda desacreditar a retórica vã, auto-elogiosa e a auto-promoção. Quantos lugares, benesses e privilégios são alcançados sem outro critério de escolha que não seja o amiguismo ou a vassalagem face a auto-promoção infundada ou, em rigor, alicerçada na falsa imagem de conhecedor ou membro de gangue dos conhecedores? Num tempo em que o conhecimento está mais acessível do que nunca e em que se privilegia o replicar/despejar informação e a pseudo-erudição em vez da verdadeira reflexão que exige independência e o cumular de anos de maturação sobre as interligações do conhecimento e da realidade comezinha. Condenar socialmente a agressividade dos fala-barato que além de cometerem crimes, ilícitos ou desrespeitarem disposições contratuais, insultam quem com isso os confronta ainda que de modo educado e tolerante, não passa na cabeça dos iluminados que dominam a bem-pensância nacional que logo confunde mínimos de decência, respeito pelo outro e pelas regras de convivência com autoritarismo. Quantas loas são ouvidas a gente que nos contactos diários – na condução na estrada, nos contactos profissionais, no atendimento dos serviços públicos ou comércio, nas ligações para empresas privadas de fornecimento de serviços, nos bancos, nas redes sociais etc. - desrespeita permanente os outros, insultando-os ou desconsiderando-os por se saber a salvo num país em que levantar a voz enchendo-se de falsas razões ou mesmo berrar costuma trazer vantagens ilegítimas? Vivemos num espaço (ou tempo?) onde ser agressivo ou usar a táctica do ataque como melhor defesa é salvo-conduto para o esquecimento de todas as aleivosias cometidas, que além de perdoadas acabam mesmo em elogio e redenção do autor. Vivemos num país onde não há real censura sobre os que desrespeitam os outros.
A bem-pensância só se ocupa destes assuntos se for para denegrir algum inimigo a abater ou adversário político ou intelectual – só se disso tirar vantagem ou gozo egoísta. Já ao deparar-se nestas circunstâncias com alguém de quem obtenha proveito ou um amigalhaço toca de dar duas palmadas nas costas e dar aquele abraço de grande cumplicidade. Lisura é palavra remota entre os iluminados portugueses. Essa coisa da honra é boa de apregoar mas lá no fundo não traz popularidade, apenas dissabores e solidão. Não é pois digna destes mensageiros da agudeza mental, sempre seguidos por inúmeros amigos de oportunidade.
Vivemos num país em que o incumprimento das obrigações, a fanfarronice, a manipulação da realidade, o usar, calcar e desconsiderar pessoas válidas - ainda que de modo dissimulado - parece condição imprescindível para a escalada e sucesso social e profissional. E isto inquina qualquer sociedade que se queira civilizada e solidária.
Mas este tipo de conversa interessa pouco a quem diz pensar o país. Preferem a cada instante zelar pela sua popularidade, dizer-se muito democratas, preocupados com a liberdade, preocupados com a falta de erudição dos concidadãos, muito respeitadores da opinião alheia, alarmados com a vinda do autoritarismo ainda que sejam coniventes quando não mesmo os autores da tirania da falsidade – aquela que pela forma mina e subverte a substância: a defesa da Democracia e da Liberdade. Dizem que a forma é fundamental, esquecendo-se de notar que é um instrumento – usado para construir algo de positivo ou para destruí-lo. Preferem criticar os governantes que vão passando pelo acessório e considerar este tipo de conversa trivialidades, constatações do óbvio e do irreversível – é a vida, dizia o outro tão apreciado na nação. Para quê mudar para melhor? Se os reizinhos da retórica vã não podiam estar melhor à custa da passividade alheia.