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28/01/2022

Álbum de família

O Livre não sai do seu nicho, dialoga com meninos universitários programáticos enquanto pedalam bicicletas equipados de certezas identitárias e cachecóis enrolados à esquerda libertária. Como não conhece o país além deste gueto insiste que os portugueses não queriam eleições e ficará surpreso depois de amanhã com o resultado da direita – mas é possível que pessoalmente se safe por haver cada vez mais tontos em Lisboa. O garboso Cotrim, também ele envolto num cachecol desta feita em cuidado estilo conservador, atrai a mocidade mais ou menos ressessa de yuppies excitados com a possibilidade de virem a riscar nos próximos anos, alçados ao Governo e ao vislumbre dos lugarzitos no mercado dos interesses dos antigos tios (e escaladores imitadores de gente bem) desertores do CDS, gente muito in que fala a metro e sem interrupções qual vendedor de meias na feira. O que restará do CDS é uma das incógnitas do próximo fim-de-semana. Sendo a maior dúvida a percentagem de votos que obterá o eufórico André, por quem temo sempre sofra uma síncope cardíaca tal o histerismo. A metro fala também Catarina que por mais que puxe dos galões de actriz colocando a voz para mostrar alegria com a presença de Ana Drago na arruada ou invocar imaginária futura maioria de esquerda já não convence, tal é o desaire que aguarda o Bloco de Esquerda. O bom avô Jerónimo - resguardado num cachecol negro para uso certo e conservador: proteger do frio e das mazelas de saúde -, aparece emocionado com as manifestações de carinho de todos, que o ajudarão a suportar mais um mau resultado. Inês surge como extraterrestre em cenários que as televisões não estão habituadas a mostrar apesar de se tratar do grosso do território português: matas, campos, terrenos de cultivo – e até em talhos consegue cordial conversa. Suja as mãos na terra como já não se usa, só por isso mereceria uma votação melhorada não fosse a tirania encapotada em tanta simpatia. Boçal na figura e atitude como só ele, o actual Primeiro-Ministro exibe o ar gingão que impede gente civilizada de o ouvir e levar a sério, mas não obsta a que perceba o paradoxo de Costa: assustado com provável derrota e aliviado pela possibilidade de se pôr ao fresco e tentar pavonear-se num cargo europeu. Rio envergando fácies e traje em franco desuso e habituado a ser destratado ensaiou pose cordata durante toda a campanha evitando confrontos, viu engrossar o número de apoiantes e votantes, crentes num caminho diferente quanto mais não seja pelo discurso menos plástico, mais colado à realidade comezinha dos portugueses.