Depois de uma semana atípica a deitar-me muitas vezes por volta das nove da noite, neste Sábado acordei cedo e feitas as tarefas caseiras fui para a rua: deitar lixo, entregar um par de calças para arranjo da costureira e levantar a encomenda das vitaminas na papelaria ponto de entrega dos estafetas da zona - é estranho mas agora nos hospitais receitam-se complexos vitamínicos vendidos online, indisponíveis nas farmácias tradicionais. Precisava também replicar uma chave pelo que desci ao Carvalhido (5 minutos a pé) para ir a uma boa drogaria. Azar: não fazem, só na loja que fez a original. Parti assim para a baixa e lá consegui o intento.
Era meio-dia e estava no centro do Porto, não podia deixar de aproveitar o excelente dia de Sol para mais umas fotografias - se bem que em comparação com as dos anos anteriores não ficaram grande coisa. Interessa-me pouco, mas sim a sensação que tive no regresso na paragem de autocarro em frente à Garrafeira do Carmo: dei comigo a pensar que cada recanto desta cidade me pertence, ou eu a ela, será mais certo assim. Quando se vive muito tempo no mesmo lugar ou o dito funciona como pólo catalisador de interesses e acontecidos não se sai impune: as ruas, as casas, as lojas, as árvores, começam a colar-se à pele da memória e como borrão de tinta da china não saem mais. Nada de novo: acontece a todos. Mas esta é a minha história, a minha memória comezinha.
Dei por mim na Rua do Bolhão já à chegada de Fernandes Tomás, a olhar para o Tribunal e a pensar nos vários dias de escala que lá fiz como advogada estagiária. Uns metros adiante em Sá da Bandeira dei com a Deu La Deu, hoje mudada do local original, onde me lembro de ir comer uma torrada ou um éclair depois das primeiras análises ao sangue, ainda criança - a minha mãe anunciava previamente que depois da colheita teria direito a pequeno-almoço na Deu La Deu. Na Igreja da Trindade estive numa noite a assistir à bela exibição do Coro da "seita" Arautos do Evangelho. Nos Cavalos, como é conhecida a Praça D. João I, derrubaram o edifício conexo ao Palácio Atlântico, onde funcionava o Banco Mello, no qual trabalhei no final do milénio a meias com as corridas para o escritório do patrono e os tribunais. Anos antes ainda nos 90 ali ao lado no Rivoli houve noites calmas a dois. Hoje em Sampaio Bruno entrei na confeitaria Bela Roma para trazer dois pasteis de carne - almoçava lá às vezes seja em novita quando ia às compras com a minha mãe, seja em almoços banais em dias de trabalho. Nos Aliados, o edifício onde esteve alojado o Banif, no qual também trabalhei, esteve em obras. Os Lóios eram ponto de encontro de uma turba de amigos para tomar o autocarro para os primeiros anos de faculdade. Mais acima na Cândido dos Reis permanece o Clube Portuense fundado por antepassados. Um nico mais acima a fila imagino que composta só de impenitentes leitores compulsivos à espera a vez para entrar na Lello - a moda dos livros é tão ridícula como todas as outras.
E eis que chegámos aos Leões onde duas barracas de testagem Covid nos ambientam aos dias pandémicos. Naquela praça que tanto calcorreei em criança, reuni o pagamento antecipado de um dos jantares académicos que ajudei a organizar no restaurante Papagaio, nas traseiras da Garrafeira do Carmo. Num dos jantares que organizei sozinha na Abadia ou Palmeira (já nem estou certa, ficam ambos na Rua do Ateneu Comercial), estando previsto sermos vinte pessoas, acabámos em cerca de cinquenta e comigo furiosa com a medição desenfreada entre uns e outros para ver quem se tinha excedido mais nos gastos - decidi que as sobremesas de uns valiam pelo vinho de outros, dividi o total igualmente por todos e os mais agrestes lá se calaram. Anos mais tarde, pouco depois de o conhecer, levei o Nuno ao pestífero Papagaio e dessa noite recordo o facto de estarmos de tal modo inebriados um com o outro antes mesmo de bebermos, que só ao fim do segundo copo nos apercebemos que o vinho estava intragável - em rigor, estragado. Nada a ver com as escolhas do Nuno como o cantinho junto ao forte de Leça da Palmeira - nada de coisas pífias onde eu o levava, apesar dele ainda hoje falar com saudade dos cachorros quentes das roulottes do Castelo do Queijo onde acabávamos a madrugada depois de uma saída a um qualquer barzito.
Depois de ir ao supermercado abastacer-me de mantimentos para o fim-de-semana, recolhi a casa. Hoje à tarde e ao fim de alguns meses de ausência regressou a minha mãe às leituras ao Nuno e ao fim do dia o meu pai para o cafézito. À noite espero ter direito a recreio.