Novamente a pergunta (já aqui feita em a 6 de Janeiro): por que razão é provável que Rui Rio ganhe as eleições a 30 de Janeiro?
O desdém com que se zomba do eleitorado que votará em Rui Rio, convencido da sua seriedade e de uma data de outras virtudes que o distinguem dos demais, é próprio de gente sobranceira, habituada a considerar-se detentora de uma autoridade que advém de tudo relativizar salvo meia-dúzia de lugares-comuns que correm entre a minoria de auto-investidos intelectuais do regime. Entre esses clichés a ideia de não haver puros, todos estando corrompidos pelo mal. Não é que não seja verdadeira, mas a forma como é usada é desastrosa: pouco habituados a exames de consciência ou a reconhecerem defeitos graves (salvo em larachas de humor para atraírem mais admiradores), disparam sucessivamente contra os que por alguma razão são tidos pela população como portadores de qualidades incomuns como se precisassem de iluminar as trevas de obscurantismo.
Tratam os portugueses que acreditam em Rui Rio (e o próprio, naturalmente) como imbecis. Pouco mais de pacóvios crentes em banhos de ética e declarações do mesmo tipo. Não ocorre pensarem que a população conhece bastante melhor do que os próprios trocistas a ambiguidade de afirmações como aquela. Sucede que muitos portugueses apreciam gente que não se enreda em discursos vazios e dissimulados muito apreciados pela elite lisboeta, erroneamente tidos por profundos testemunhos de conhecimento por se confundir forma e conteúdo. Muito menos têm paciência para iluminados de algibeira. Há um enorme cansaço do artifício e da falsidade. A franqueza conta de facto. É qualidade desconhecida da elite que tropeçou nos corredores do poder em Lisboa e que no afã de se ter por sofisticada mais se assemelha aos discursos de psicologia barata das secções de lifestyle das páginas virtuais. É natural que os eleitores queiram saber por uma vez em muitos anos aquilo com que contam, sem precisar de estar permanentemente a depurar todas as palavras ditas por políticos e comentadores para abstrair das manobras de distracção e engodos. Cansaram-se da falsidade promovida a sapiência.