Sou dada a precipitações, talvez por isso repare muito nas alheias. Todos os dias somos sujeitos activos ou passivos de considerações - ainda que silenciosas - sobre pensamentos expressos, actos e omissões. Pergunto-me que percentagem dessas considerações não tem uma componente fortíssima de erro ou equívoco. Às vezes tenho a sensação que só por intervenção do divino Espírito Santo a coisa corre bem e aquilo que é dito, feito ou omitido é interpretado correctamente. Julgo que há quem acredite que a beleza do mundo está nisso: nessa espécie de liberdade de compreensão subjectiva. Será a forma correcta de ver o mundo, mas parece-me uma ingenuidade. Se não houver um esforço real de nos despirmos dos preconceitos e observamos os outros dando crédito antes de cobrar comportamentos exemplares aos nossos olhos necessariamente poluídos de interesses, do peso da educação e do círculo sempre restrito de relações e de experiência de vida com as limitações e concretizações que marcam cada um, todo diálogo está minado.
O que despertou esta nota foi um pormenor de somenos importância. No último dia do ano de 2019 publiquei aqui um vídeo do Youtube com o Nuno a tocar Ave Maria. Na altura intitulei-o Ave Maria - Bach, por Nuno Guerreiro da Silva. O vídeo teve dois "não gosto". Quando há uns meses acrescentei Gounod, os "não gosto" desapareceram e surgiu mais um ou dois gostos. Presumo assim que o desamor seria pela ignorância do intérprete ou minha (que gravei, editei e publiquei o vídeo com todas as nabices próprias de quem não está habituada a editar música e vídeo). Sucede que colocamos Bach exactamente para chamar a atenção para o facto da base sobre a qual a composição de Gounod foi sobreposta ser o Prelude No. 1 em C maior, de Bach e por erro o arranjo das composições ser constantemente identificado como Ave Maria de Gounod, não reparando nessas circunstâncias em correcções por parte dos sábios dos catálogos e do gatilho lesto. Aliás, tive a oportunidade de aqui publicar em Agosto de 2020 uma brincadeira séria de Bobby McFerrin que por si só explica isto mesmo. Subtilezas.
De resto a composição diz-me bastante por saber ser a predilecta dos meus avós maternos, que a tocavam ao piano. Quando o Nuno a toca - tantas vezes como forma de gratidão -, o que acontece com alguma frequência, sinto-o como se um fio invisível nos unisse aos meus avós e tudo tivesse continuidade.