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21/06/2025

Ponto de situação

São 17h21. Só agora vou dedicar-me a ler e escrever. No Medium acabo de tropeçar numa pequena e tentadora entrada sobre pássaros. A sensação genérica é de vazio, mas acredito que baste puxar por uma ponta para vir a torrente. De insignificâncias? Talvez. Falei muito nas últimas vinte e quatro horas, não há muito a escrever por agora. Não dá para tudo, ou trabalham as cordas vocais ou os dedos. O cérebro fechou para descanso do pessoal. E no intervalo operam os olhos e as orelhas, nem que seja para ver o dia a acontecer preguiçoso e ouvir a pasmaceira da rotina citadina de fim-de-semana: dois pássaros que cantam, as buzinas intermitentes, o motor em andamento e os pneus do asfalto, a ambulância barulhenta, a conversa curta na rua, o arrastar de objectos metálicos, o martelar esporádico, o zumbido de uma televisão ligada numa casa vizinha, uma motorizada ruidosa. Vou tomar uma medida enérgica: descer e comprar pão. Preciso acordar da letargia em que caí ontem. Falei muito nas últimas vinte e quatro horas, mas estava ausente, apenas de corpo presente. O espírito anda sabe-se lá onde. Sinto-o longe da razão e isto desestabiliza. Preciso recuperar a mão no pensamento.


Adenda.


Confusão. Já vim do supermercado com uma baguete francesa e cerejas. Já comemos umas tiras de pão com queijo de ovelha. Voltei a sentar-me aqui na mesa do computador e o gato voltou a saltar-me para o colo, instalando-se a ronronar para pedir festinhas e dando beijinhos no meu queixo. Dá-me um mimo desgraçado, este bicho. Não sei por que ponta pegar, os miolos passam da imagem dos pássaros para ideias dispersas como a pergunta: que admiro eu? Ou para as diatribes habituais como a metáfora da profundidade do oceano face à superficialidade da beleza de uma praia concorrida ou uma vistosa regata de veleiros na costa. Tudo implica conhecimento, nuns casos até mestria, seja profundidade ou superficialidade. Tudo parece ter interesse. Não haverá hierarquias válidas no mundo senão as das convenções dominantes? Onde já vou?, só queria dizer que estou dispersa e neste momento custa-me definir o trajecto de escrita sistemático para produzir (não é disso que se trata?, ou será criar?) o diário deste fim-de-semana. Apetece-me esticar a mão direita e apanhar a coleira do cão desorientado para o sossegar e dizer-lhe: senta, acalma. Agora escreve. Sou eu, o bicho. E a dona do bicho.