A história eleita de hoje no Medium é de um estudante sul-coreano e versa a tela A Face da Guerra, de Salvador Dalí. Uma interpretação simples. O que gosto neste autor, que vou lendo tal como o historiador de arte cujos artigos já deram azo a diversas entradas minhas, é da clareza. Independentemente do acerto ou desacerto da análise, da sofisticação de um e singeleza de outro, são ambos cristalinos a escrever. O autor começa por recordar que durante a Guerra Civil Espanhola Dalí viveu em Paris e mais tarde com a ocupação francesa pelos alemães fugiu para a Califórnia. Diz-nos que a tela A Face da Guerra, um rosto gigante que abriga uma infinidade de variações do mesmo rosto, é de 1941 e expressa a miséria, o isolamento e a tristeza de infinitos seres humanos na guerra. As cores sombrias castanhas reforçam a solidão e desesperança, nem o céu azul parece acender a esperança já que é bem pálido. As cobras representam a violência contínua e a mão impressa no canto da tela reflecte o sofrimento pessoal de Dalí com os horrores da guerra. Não é uma descrição abstracta do mundo exterior, é a própria dor do artista com o mundo que rodeia. Podem ler o post que deu causa a este parágrafo na Reading List.
De manhã dei por mim a pensar que ao contrário dos génios (não é ironia) não sou achacada de falta de inspiração para a escrita. Deve ser sinal de mediocridade. Sou fruto do tempo e neste aspecto não luto contra a corrente. Hoje todos temos o que dizer, seja interessante ou bagatela. Reflexão oportuna ou confissão desajustada. Expressamo-nos em catadupa. Opinativos compulsivos. Expurgadores desaustinados. E assim damos oportunidade aos conselhos puritanos alheios, que ditam através das citações de frases inspiradoras da treta a necessidade de silêncio e de suposta sobriedade. Sugerem-no como se buscassem uma elegância inteligente fajuta — aparência de sabedoria. Mas nem era isto que queria dizer. Antes contar que em regra tenho o cérebro preenchido de inúmeras ideias para explorar na escrita. Talvez repetitivas. Não compreendo bem aquela postura antiga dos génios da escrita tomados de crises de inspiração lá no alto pedestal da Arte. Se bem que compreenda a falta do que é dado de mão beijada. Tive na vida uns laivos de facilidade que nos insuflam o ego e nos fazem julgar mais do que somos. Mas felizmente levo na tromba o suficiente para não me deixar embalar pelas peneiras. Não vivo, nem nunca viverei da escrita. Se não tiver inspiração para escrever, arrumo a casa, trabalho com mais concentração naquilo que me dá sustento, dou mais atenção às pessoas que me rodeiam, passeio, oiço música, penso a sós com os meus botões, leio, cozinho. Não é tema de preocupação. Conheço sim a sensação de desânimo, a que não sou muito atreita, mas já aconteceu no passado e também nos últimos meses. Sempre que acontece, procuro combater com actividade e imaginando o futuro com planos de mudança. Muitas vezes os planos saem gorados, o que aprofunda o desânimo, e lá volto a combatê-lo — processo eterno de quem é insatisfeito por natureza. Logo aparece uma fase mais alegre e realizada. É uma questão de insistir no que acreditamos intimamente e de respeitar o valor benigno nas rotinas que nos mantém à tona. De desvalorizar as desconsiderações — não temos de agradar. Nem sempre a vida é uma excitação. A falta de inspiração que me preocupa não é a da escrita, mas a mais ampla, a falta de ânimo para a vida. Nesse caso custa tanto saber o que escrever, como saber o que fazer para o jantar, como o que vestir no dia seguinte, o que dizer numa conversa de circunstância. Felizmente agora não me sinto assim, mas é bom estar consciente que posso vir a sentir-me. Tudo na minha vida é muito volátil apesar da aparência de rotina monótona. O que somos cá dentro tem mais peso do que o exterior revela. O que somos cá dentro é o que nos define.
Para o jantar de hoje usei o pão alentejano para fazer açorda (migas) a acompanhar escalopes de novilho. Usei azeite, cebola, alho, sal, polpa de tomate e hortelã. Voltei a tirar fotografias como fazia antes no blog Comezinhas. Tal como publiquei as fotografias das compras online no supermercado Continente. Tudo a ir aos eixos. Tudo a encaixar como num círculo de sentido universal que se reflecte nos hábitos mais banais. Não atraentes para as audiências. Nalguns casos repulsivos por se afastarem da aparência desejada de perfeição. O valor da vida faz-se tanto nas heroicidades, nas grandes análises, nas grandes leituras, como nos pormenores comezinhos. Desconsiderá-los revela pobreza de espírito. Tal como desacreditar a perspectiva psicológica da vida em benefício exclusivo dos factos e da sociologia ou da história. Vai manco e preconceituoso o mundo que não compreende nem quer compreender o que é o ser humano por dentro — completo e autêntico, e não o ser humano esquartejado do que sente e da sua vida comezinha para criar a imagem perfeita e fictícia de sujeito ideal com conhecimento vasto e apelativo sobre a vida alheia, amores palpitantes, percurso de superação, carreira profissional competente e exemplar e vida social de sucesso, passatempo atraente em perfil ajustadinho às convenções, às modas e às audiências.




A ver se amanhã (hoje, na verdade) me inteiro do mundo. Tenho tido a televisão ligada em Teerão, Natanz, Jerusalém, Telaviv, generais, coronéis, diplomatas, comentadores e jornalistas, mas tudo resulta só num zumbido difuso. Amanhã tentarei ler jornais, nem sei bem onde e quais. Logo se verá.
Obrigada por terem lido. Bom Domingo.