A negritude baixa sobre mim como nevoeiro denso. E levanta. Içada em esforço de clareza ocupada. A actividade traz normalidade. O ócio por mais trabalhe a profundidade, sempre me faz cair no embotamento reflexivo. Pensas demais. É. Mas não fosse isso e nada do que sou seria. O cansaço traz consigo a presença do que procuro abstrair. A decadência de quem estimo. As sucessivas derrotas do que admiro. A padronização da pilhéria. A monotonia de dias que só preconizo frutíferos por retroactividade – e como começa a soar ridícula a esperança depois dos cinquenta.
Ao criar não estou em condições de me satisfazer. Arrebatadores só a falta, a falha, o erro. O que ainda não é. Só o devir. Lá chegarei. Por agora o tempo é de trabalho inglório. Cada dia mais inglório. Em anestesia a tristeza já não faz mossa, já é a massa que cobre os ossos até ser animada pela iniciativa – pela clareza da acção. E de novo a alegria dos dias. Melhor, de momentos nos dias.
Acostumada a assistir ao sucesso dos atropelos e ladroagens, mas não conformada. Vejo a crueldade e o embuste vestidos de palavras e imagens atraentes dançando de par em par com as portas dos salões escancaradas. Não sobra pingo de sobriedade senão contrafeita. Não sobra pingo de ponderação senão de enfeite provisório. Sucedem-se as certezas em flash, logo obliteradas na próxima verdade. Efémera realidade plena presunção e crédito fácil. Sem critério, nem mérito. E desmemoriada.