

Hoje a pincelada será muito leve. Tão leve e despretensiosa quanto a pequeníssima história que li no Medium acerca das diferenças entre Édouard Manet e Claude Monet, dois dos mais importantes pintores franceses do século XIX, não raro confundidos apesar da marcante falta de semelhança dos seus trabalhos. A autora do post conta o que aprendeu numa palestra no Dubai e elenca as diferenças entre as telas dos dois pintores. Os temas principais para Manet eram as pessoas e as cenas sociais, para Monet a natureza não se perdendo em detalhes figurativos. O primeiro utilizava cores escuras e saturadas, como o preto e castanho, pincelava largo e usava contornos, o segundo sobrepunha cores claras, como os azuis e roxos, em manchas vibrantes. A luz artificial predominava em Manet, enquanto Monet usava a luz natural, o que conferia claridade e arejo às telas. O primeiro era um realista, cujo trabalho não foi reconhecido durante a vida, o segundo foi fundador e representante do impressionismo, tendo morrido no auge da fama. Deste modo, usando o que li da história do Medium ficam com uma ideia genérica dos dois pintores e podem pesquisar no Google as telas de um e outro para confirmar o que a palestrante do Dubai e a autora do texto contam de modo muito simplificado, e me limitei a resumir. O post referido está como sempre disponível na Reading List.
Pela manhã ocorreu-me a ideia da quantidade, da abundância — a desenvolver noutro dia. De quê? De tudo. Vivemos tempos de busca incessante de mais e melhor. E de diversidade. Não me refiro apenas ao consumismo material, mas também relacional e intelectual. Há graus e nem que seja por breves momentos muitos sentimo-nos aquém por vivermos insatisfeitos com existências restritas, limitantes, quando na verdade são cada vez mais imensas ainda que vazias. Tomemos por exemplo uma vida adulta. Quantos automóveis possuirá a pessoa comum em vinte anos? Quantos trocam habitualmente ao fim de quatro anos e agora até se diz uma medida ecológica já que os carros antigos poluem. Férias e viagens. Entre gente desafogada financeiramente, quantos passeios, viagens e férias são gozadas anualmente? Experiências gastronómicas. Quantos restaurantes tradicionais ou gourmet, antigos snacks ou modernas casas de tapas conhece quem sai usualmente para comer fora? Quantas variedades de pratos e cozinhas de diversas regiões do mundo testam incentivados pelos programas televisivos e páginas lifestyle ou viagens? A quantidade. A abundância. A diversidade. A riqueza. Cada vez mais democratizada. O que era exclusivo de classes privilegiadas disseminou-se como rotina de muitos. Amigos. Quantas vezes dizemos a palavra amigo para nos referirmos a pessoas com quem nos relacionamos estreita ou superficialmente? No mundo físico ou nas redes sociais quantas dúzias de pessoas acreditamos terem alguma afinidade connosco? Quantas camisas tem um homem comum da classe média no guarda-fatos, quantos pares de calças e sapatos? Quantos vestidos, calças, saias, blusas, sapatos, carteiras etc. tem uma mulher comum? Com que frequência renova o guarda-vestidos? Quantas paixões e flirts têm uns e outras em busca do amor verdadeiro, do caso perfeito ou tão simplesmente da variedade, da vontade de sair da rotina? É um mundo de abundância, rico, variado e transbordante. Quantas séries de televisão são devoradas sequencialmente por marés de moda em vinte anos? Quantos livros se lêem sequencialmente incentivados por recomendações asfixiantes determinadas pelas tendências da actualidade noticiosa e intelectual? Ou por círculos de amizade ou conhecimento de suposta afinidade de interesses e gostos. A democratização da cultura transformada em moda. Quantos metros de mensagens instantâneas se trocam por vício nas redes sociais acerca de notícias, piadas, novidades e futilidades? Quantos conteúdos se partilham online por compulsão? Quantos conselhos gratuitos e conteúdos de filosofia de vida de algibeira são gerados diariamente nas plataformas online? Quantos litros de detergentes e produtos de higiene e beleza se usam em excesso? Quantas marcas e castas de vinho se enumeram por mera vaidade? Quantos vocábulos da moda são incluídos no discurso diário para sentir maior aceitação no meio profissional ou social? E ao fim de contas tudo resulta nisto: quantos quilos de ansiolíticos, anti-depressivos e anti-psicóticos são consumidos anualmente? Ou nos casos dos que não os tomam, quantas centenas de julgamentos e agressões são perpetradas anualmente a quem pensa ou se comporta de modo diferente? A quantidade. A abundância. O deslumbre na busca da vida dita plena, com razão e sentido. Possuir mais, viver mais, experimentar mais, saber mais — aquilo que antes se dizia “ter mundo” — conhecer mais até ao colapso do sistema nervoso central. Em suma: parcimónia precisa-se. Sei, dá a sensação de propor o regresso ao bucólico, à simplicidade, ao romântico. Seja. Haja espaço para respirar.
Antes de terminar com a breve descrição desta manhã de Sábado conto que o quotidiano continua muito ensonado e cansado. Sinto vontade de arrumar a vida por departamentos. Em matéria de casa já enviei a carta a resolver o contrato de angariação imobiliária. Não será provável voltar a pensar trocar o apartamento nos tempos mais próximos, mas ainda não tenho nada determinado em definitivo. Logo se vê. Na saúde tenho de definir este Verão se faço ou não várias cirurgias. Não vou poder fugir da vascular, por causa da segunda tromboflebite de Fevereiro passado na perna, mas ainda tenho de decidir se faço ou não as plásticas na sequência do processo de emagrecimento. Pensei em duas que me iam fazer sentir melhor comigo mesma, mas não sei se estou virada para passar de novo pela saga das consultas, exames e internamentos nos hospitais, podendo dispensar tudo isso sem perdas significativas. Afinal vivi tantos anos com pequenos complexos relativos ao corpo, não é nada com que não se viva relativamente bem. E por fim a cirurgia à miopia adiada durante trinta anos. Neste caso já é anedótica a referência. Em matéria de escrita não tenho planos especiais, senão continuar a fazer o que venho a fazer e se possível retomar, apesar da pouca disponibilidade de tempo, o projecto fora de antena. No que diz respeito ao mundo online talvez a alteração a impor seja apenas a de perder menos tempo com tricas, ser mais criteriosa no que leio e oiço. É uma batalha custosa já que implica disciplina e controlo sobre os meus próprios instintos e vícios de desperdício de atenção e tempo. Quanto a passeios e viagens já defini o futuro desejado no post Devaneios para alegrar das Comezinhas. O Verão será passado no Porto, com praia por cá, talvez em Gaia. Devo é impor-me quatro ou cinco dias de praia seguidos, o que por cá será uma conquista, dada a incerteza da meteorologia e das nortadas.
Hoje depois da lição de piano do M. — estava mais concentrado, mas o Nuno descobriu dificuldades de sincronização com o tempo, como se precisasse de aprender a acertar o passo na ordem unida na tropa -, fomos ao Parque da Cidade que estava apinhado de donos a passear cães. Felizmente também havia muitas crianças e algumas a festejarem o aniversário em piqueniques ao ar livre — óptima ideia, a das famílias que escolhem passar assim os dias festivos. Almoçamos com a minha mãe e irmão N. com os dois cães. Conversa boa à mesa e no meu caso sesta no sofá. Foi impossível manter-me acordada. Depois viemos para casa matar saudades do nosso bichano.


Obrigada por terem lido. Bom Domingo.