Pesquisar neste blogue

29/06/2025

Diário 29 de Junho de 2025

Esta semana voamos com Ícaro numa história que encontrei no Medium, publicada em 2019. O bom desta plataforma é que vão destacando posts de anos transactos pelo interesse intrínseco e não por estarem em cima do acontecimento. Ora vamos lá a isto. O autor faz um apanhado da representação da lenda de Ícaro ao longo dos tempos. Explica a fonte: o poema épico do poeta romano Ovídio, Metamorfoses. E narra o mito de Dédalo, artesão e inventor, e seu filho, Ícaro, presos numa torre na ilha de Creta pelo rei Minos por ter ajudado Teseu, rei de Atenas, a fugir do labirinto que o próprio pai de Ícaro havia projectado. Não me perguntem porquê, mas Teseu tinha matado Minotauro, criatura com corpo de homem e cabeça de touro. Estes enredos da mitologia grega e romana sempre me passaram ao lado, como as intrigas dos romances históricos e das séries da Netflix. Se tiverem a pretensão de conhecer a história em profundidade podem sempre ler Ovídio. Para escaparem da prisão Dédalo fez dois pares de asas de penas e cera e advertiu o filho a não voar demasiado baixo para a humidade não pesar nas asas, nem demasiado alto para o sol não derreter a cera. Ícaro, orgulhoso e vaidoso, começou a subir cada vez mais alto, o sol derreteu a cera das asas, o que o fez cair e morrer no mar afogado perante a impotência do pai. O autor conta a história como representação da criatividade e do desejo humano de superação, e também do perigo da arrogância e do excesso de ambição. E enumera algumas invocações da queda de Ícaro na arte. Dou apenas nota de duas: as pinturas Paisagem com a Queda de Ícaro, de 1560, de Pieter Bruegel, e Paisagem com Lavrador a Arar e a Queda de Ícaro, de 1620–1630, de Marten Ryckaert. Ambos representam a tragédia de Ícaro como uma trivialidade num mundo que continua a pulsar com acontecimentos maiores, seja o lavrador a arar o campo ou os navios a prosseguir as suas rotas comerciais. É o que é, como dizem os miúdos. Podem ler a história que deu azo às linhas precedentes na Reading List.


O meu carinho por Ícaro vem do tempo do liceu. Não só por ter lido a lenda, nalguma versão abreviada como é meu costume, como por ter conhecido (ia dizer ter tido um amigo, mas seria excessivo, afinal partilhei apenas meia-dúzia de vezes a mesma mesa do café onde vivia enfiada; dividi a mesa e a conversa, claro está) um pintor cujo nome artístico é Ícaro. Com mais dez ou 15 anos do que eu e a amiga com quem partilhávamos a mesa, lembro dele mostrar-nos como se desenhava a perspectiva exemplificando com a figura de uma cadeira que ia nascendo como por magia na folha de papel a partir da ponta do lápis de carvão segurado pelos dedos de mão esguia e talentosa. Admirava-o. À época tinha 15 anos e já tinha deixado a Arte e Design para trás, já tinha noção do grau de dificuldade das artes plásticas. Tempos que ficaram lá muito atrás. Ao fim de todos estes anos a leitura da história do Medium fez-me recordar e googlei o nome do tal pintor. Lá o descobri no Google. Se pensar bem essa época foi recheada de gente ligada às artes. A minha turma de humanísticas do liceu produziu uma cineasta e um maestro de sucesso, e havia mais gente com inclinações artísticas.


O que mais? Hoje nas audições fúteis estive atenta às cores e a Carl Jung. Ainda um dia serei castigada por desdenhar da minha inclinação para os esoterismos e conteúdos de psicologia pop, afinal sou uma consumidora. Devia ter mais respeito e ser agradecida. A tese em causa? A nossa relação com as cores é manifestação do inconsciente e a rejeição por algumas delas revela o nosso lado sombra. O conselho? Assumi-lo, enfrentá-lo, integrando todas as cores. Comecei por ficar contente por ter uma boa relação com todas as cores enunciadas no vídeo. E por reconhecer o percurso. A primeira cor eleita na infância, o vermelho da força e da energia vital. A passagem para o azul, que ficou como cor predominante o resto da vida, a procura da paz. A escolha das cores neutras como os beges ou outros tons pálidos da paleta de tinta no início da vida profissional, a busca da imagem de sobriedade e seriedade. Foi sol de pouca dura. O que vingou? A presença de gama variada de cores no guarda-vestidos e na decoração da casa. Gosto das cores todas (será?). Há dias em que apetece imenso vestir a leveza do branco, outros a provocação do preto, o vermelho traz-me boas emoções, o amarelo e o cor-de-rosa alegram, o verde descansa, o azul dá efectivamente paz. O lilás traz a sensação de carinho e beleza. Comecei por ficar contente, dizia, todavia não podia deixar de criar dúvidas e complicações — inventá-las, quem sabe. O vídeo propõe que nos questionemos sobre as cores que rejeitamos para percebermos os aspectos da nossa vida e emoções com que lidámos mal. Dá o exemplo do cor-de-rosa e das pessoas que o excluem, revelando dificuldade em aceitar a vulnerabilidade. Ora pensei e no meu caso as cores rejeitadas são o roxo e o castanho. Para a primeira a razão é fácil de descortinar: preconceito herdado. Não será uma coisa da minha própria natureza, e até faz sentido, porque acho que teria facilidade em usar roxo apesar de a rejeitar por tique. No segundo caso é menos claro. Afinal no passado gostava de castanho; comecei a embirrar mais tarde, ao ponto de ter peças de roupa dessa cor que nunca usei. É estranho porque associo o castanho à terra, ao solo, à natureza, logo, não devia rejeitar. Pelo contrário, é tudo quanto gosto. Vou espiolhar a simbologia e já volto. Já fui, já voltei. Tinha alguma razão, é a cor que nos conecta à natureza, à terra, e está ligada à estabilidade, à segurança e ao conforto. Em suma: ao equilíbrio. Estará aqui a minha sombra? Pronto, lá terei de procurar uma peça de roupa castanha e vesti-la por dez minutos para começar a integrar em mim o lado sombra e aspectos do subconsciente rejeitados. Vi ontem na televisão que há chanfradas que manipulam e se injectam com substâncias para emagrecer compradas na internet e verifico agora que há malucas que fazem auto-terapia vendo vídeos que invocam ensinamentos de psicologia de Carl Jung. E com a máxima lata descrevem o processo no blog. Uma poupança em consultas de psicologia. É a vida.


Como contei no post publicado mais cedo, tentei ir ao sapateiro aqui na zona, mas está fechado aos Sábados. O romantismo do comércio de proximidade já teve melhores dias. Fui muito bem atendida no sapateiro do Arrábida Shopping e já tenho os dois pares de sandálias arranjados. Encontrámos os sapatos desejados para o Nuno, mas não a t-shirt branca para mim. À quarta loja encontrei a que gostei, mas a fila para pagar era infernal. Vim embora. O almoço foi agradável, conversado e regado com sangria — para mim, como a t-shirt branca, significa Verão -, com o mar ali do lado de fora da janela. Do lado de dentro as mesas familiares barulhentas e alegres e os comuns festejos de aniversário. No fim passeamos um pouco na marginal sob um sol caloroso e uma aragem leve e agradável. Tomara que o tempo esteja assim no final de Agosto/início de Setembro. Se tudo correr bem, faremos uns dias de praia em Gaia e outros em Angeiras. Para desestabilizar este doce enlevo, conto que à vinda passámos à porta da nossa antiga casa de Bessa Leite e comentávamos que somos mais felizes nesta casa actual por termos mais espaço e por nos vermos menos (em Bessa Leite dividíamos o escritório e discutíamos bastante mais) e também por não termos os constantes problemas de infiltração de águas. Eis senão quando já em casa me liga a vizinha de baixo a dizer que tem humidade no tecto por baixo do meu lava-loiça. Tenho tudo seco, pelo que o problema está escondido e implica obra. Resumindo: afinal não me livro da saga das infiltrações, das obras e das seguradoras. Praga.


20250628_151556


20250628_131954


20250628_133148


20250628_140526(0)


Não, não vou deixar isto terminar com tristezas. Para concluir conto que esta semana o Nuno reuniu uma série de músicas que foi compondo e editando ao longo dos anos num projecto coeso. Na quinta-feira estivemos a ouvir. O Mouro. Uma alusão à forma como eu o tratava por brincadeira há 25 anos e quando ele respondia que estava cá a fazer estágio para morcão. Sonoridades orientais a invocar o mundo do Mouro-encantado e da Xerazade.


Obrigada por terem lido. Bom Domingo.