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22/06/2025

Diário 21 de Junho de 2025

(actualizado)


Perdi o interesse pela entrada sobre pássaros no separador «Pintura» aqui do Medium. Em poucas palavras apresentam-se imagens de aves e a tese do seu carácter psicótico. Anula-se o cariz gracioso do cântico dos pássaros para identificar espécies mentalmente instáveis e violentas criando enredos macabros. Este apelo ao desporto da agressividade para provocar e obter audiência não me cativa. O único interesse seria o das telas em si, mas já perdi linhas suficientes. Vou sim procurar outra história no Medium. Vou usar a palavra birds no motor de pesquisa. Boa. Descobri algo interessante. Acabo de ser apresentada a Iván Moricz Karl, um pintor húngaro que emigrou em 1950 para a Argentina. O autor do post conta-nos que o artista na adolescência começou a interessar-se pelo hiper-realismo, género de pintura que se assemelha à fotografia de alta-resolução — em miúda não era muito fã deste movimento artístico, mas começo a reponderar. Especializou-se em retratar a natureza e em especial pássaros. Fez trabalhos para associações de conservação da natureza. Vive há muitos anos no frio andino isolado numa cabana dos Parques Nacionais Argentinos dedicado a explorar a flora e fauna da Patagónia. Recebe visitas dos amigos apenas ocasionalmente no Verão. O autor frisa que o pintor não é um ermita rabugento, mas sim um homem simpático que escolheu viver só para desenvolver o seu talento: um observador que conhece cada «detalhe das formas, texturas e cores dos frutos, troncos, folhas, garras, penas, pêlos» de tal forma que com o pincel é mais preciso do que a fotografia de alta resolução, isto porque a última para captar cada pormenor precisa de iluminações e orientações diferentes, enquanto a pintura pode integrar numa só imagem os diversos detalhes. Podem ler esta segunda história que deu origem aos comentários deste parágrafo na Reading List. Foi publicada em 2021. E deixo aqui um vídeo do YouTube onde podem conhecer o pintor: 80872-80872-Res-Vid-16x9-procM-GG-ES-VAD-MAX-SIR-ProcrNotLazyT-.


[Nota. Imagino que por algumas cabeças de tudo isto o que mais tenha retido é o pormenor da emigração para a América do Sul após a Segunda Guerra Mundial e daí parta para as ilações. Nada sei acerca do assunto nem das origens deste pintor.]


Mais cedo tinha em mente uma ideia que não sei como representar de forma mais desenvolvida do que isto: a profundeza do oceano não se compara à vida na praia chique, feita passarela. Por mais bonita seja a praia turquesa de areia branca e palpitantes ou perversas as tricas das vidas das personagens que as habitam e a forma como se relacionam à superfície, como pequenos veleiros navegados por elegantes aventureiros, falha o essencial. Pode haver beleza e até necessidade de mestria para pilotar, mas há qualquer coisa que falta, uma certa densidade incompatível com a busca de excite e sofisticação. Mas claro tudo pode ter interesse dependendo do que se procura. Até a superficialidade implica conhecimento e mesmo especialização. Pode é não interessar a quem não tem propensão para se distrair com o supérfluo.


O que admiro? Nem sempre o que admiro interessa-me. E esse é um disparate que pago caro. Perco muito tempo com questiúnculas e frivolidades que cada vez mais me irritam. Chego ao ponto da raiva. Devia simplesmente ignorar como quem desliga um programa da televisão de má qualidade. Mas o facto é que não consigo nem posso ignorar o mundo. Para onde quer que me vire vejo o sucesso fulgurante da leviandade, da vacuidade, da agressividade e da injustiça. Todos trasvestidos de sabedoria, de conhecimento profundo da condição humana. Balelas. O que admiro? Gente dedicada aos seus interesses e respeitadora dos outros. Gente que contribui com o seu esforço, trabalho e talento para o bem-comum ao invés da busca vaidosa de encosto e protagonismo para impor-se aos demais através da falsa imagem da competência, do rigor e de ascendente fabricado nas sobrevalorizadas habilidades sociais. Mais cedo pensei: mas afinal, quem admiras tu? Gente ligada à educação que se doa de corpo e alma a ensinar crianças e jovens pondo o foco e o esforço neles, nas técnicas e meios de os ajudar a aprender. Gente ligada à arte que se aperfeiçoa e se esforça a espevitar consciências de forma inteligente, a representar o mundo real e a moldá-lo em termos mais justos. Gente com quem me cruzei nas diferentes empresas e instituições por onde passei focadas no seu próprio trabalho, em desenvolvê-lo de forma correcta e eficiente. Gente recta no modo de se relacionar com os outros, capaz de pensar no melhor para o todo. Quem mais admiro? Em geral, pessoas genuinamente delicadas e preocupadas com o que as rodeia. O que não suporto? Gente que passa por cima dos outros e os usa para vingar. O tempo desperdiçado com inutilidades, a apontar erros alheios insignificantes e total incapacidade de assumir as próprias falhas. Os atalhos e facilidades da incompetência. O investimento de tempo e trabalho para dar na vista. A falsa simpatia e os falsos elogios. A proa. A arrogância. A má-criação. A estupidez presumida. A presunção de que se é muito lúcido e realista e a suspeita de que é um iludido, um tonto quem renuncia ao rasca. A incapacidade de compreender a escolha da simplicidade e delicadeza. A escolha pelo arremesso de factos e os floretes argumentativos ideológicos. A distorção e manipulação da informação disfarçada de boas-intenções.


Ontem tive cá em casa os meus sobrinhos a jantar. Uma visita inesperada e o meu convite em cima da hora. A descontracção deles agrada-me. A forma como se sentem à vontade para se estirar no sofá, contar sonhos comprometedores, falar abertamente do que lhes vai na alma esmiuçando sentimentos, é um manifesto do tempo. De abertura de espírito. O mundo mudou muito nas últimas décadas e as cabeças também. A minha sobrinha foi arranhando umas coisitas ao piano. Não há fotografia porque, ao contrário do irmão e da minha enteada, detesta a ideia de ser exposta. Naturalmente, respeito. O meu afilhado afinou mais qualquer coisa nas configurações da saída de som do computador e teclados do Nuno. Conversámos, rimos e jantámos salada russa com maionese. Fizemos quantidade tal que tivemos que passar o dia de hoje a acabá-la. À sobremesa servi profiteroles. O Nuno descascou as batatas e cenouras e lavou a loiça.





Jantar1


 


Jantar2


 


Jantar3


 


Jantar4


O M. veio e hoje quem me parece ter-se portado mal foi o professor, que o deixou fazer o que quisesse. Ora ele precisa treinar bastante as músicas que foi aprendendo e depressa desaprenderá se não mantiver disciplina. Na casa de acolhimento não tem piano ou teclado onde praticar. Hoje o Nuno e eu decidimos fazer o que já tínhamos pensado no ano passado. Dar um teclado à casa dos miúdos. Não nos podemos esticar e por isso vamos optar por um teclado piano-arranjador básico da Yamaha para iniciados. Vai dar-nos o gozo danado e quem sabe não virá dali mais um interesse pela música dalguma das crianças acolhidas.





Obrigada por terem lido. Bom Domingo.