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19/06/2025

Ei-la, a mexerufada

Sei que a vasta audiência das Comezinhas, os cerca de vinte e poucos leitores habituais, morreriam se não contasse o que hoje me apoquenta. Aos fins-de-semana e feriados em vez de vinte são meia-dúzia. Não contem a ninguém, há que manter a aparência. Afinal cada um usa os trunfos que sabe e pode. Poderia dedicar-me a escrever inanidades ou, então, frases presumidas para me pôr a jeito da ribalta, mas esse espaço é demasiado concorrido. Cada macaco no seu galho.


Para começar a preocupação é o almoço. Estou na dúvida se me estoiro de trabalho a fritar em ar quente quatro rissóis de carne e a preparar a habitual salada para acompanhar. Rissóis, esse item proscrito da modernidade por atentado à saúde e às modas.


Outro problema grave que me apoquenta é o próximo livro a ler ao Nuno. Falta apenas meia hora do que está no activo e não decidi ainda se vou já para as Arábias, com Os Sete Pilares da Sabedoria, ou se me atiro primeiro à que já era suposto ter lido – a História da Ciência para Pessoas com Pressa. O Nuno ajudará a decidir, se bem que sendo as orelhas dele, mas a garganta minha, o meu voto costuma pesar.


Bom, escrever estes dilemas aqui no blog é como lançar os dados do oráculo chinês I Ching que jogava da adolescência. Por falar nisso falham-me os rios, as montanhas, os ventos, o mar, o fogo, esses elementos. Talvez por isso tenha postado há dois dias um poema dedicado a Rosalía de Castro, que li por volta dos vinte, mas curiosamente não tenho vestígios em casa. O livro de poesia que publicitei não me cativou, para que fique registado. Talvez numa segunda leitura mude de opinião.


Mais? Só um comentário breve sobre a sensação mais incisiva após a maioria das leituras. O buraco. Reparo que a maioria das pessoas que lê prende-se no enredo e fica contente, congratula-se com o novo mundo, tira conclusões, apoia, contesta. Eu leio e caio no buraco. No precipício da cada vez mais funda ignorância. Isto a propósito dos séculos XVIII e XIX, dos conflitos bélicos na Europa e na América do Norte, da Guerra de Sucessão Espanhola, a emergência da Prússia, e todo o emaranhado de tensões que iam redesenhando o mapa europeu e da América do Norte. Nesses duzentos anos está a génese dos nacionalismos do século XX e eu pouco sei além da Revolução Francesa, das Invasões Napoleónicas e de pormenores dispersos.


Bem sei que nos antigos salões dos pretensos conhecedores de História passeavam-se senhoras com gosto pela fofoca acerca das ligações, casamentos e traições entre casas reais e toda a intriga envolvente das respectivas cortes – assim conheciam a história dos países europeus -, e senhores com muito parlapiê a versar nome e datas de batalhas célebres e anedotas alusivas. E disso umas e outros davam nota, tomando-se por grandes conhecedores de História.  Continuam a ter seguidores, agora já sem pedigree – substituíram a educação pela afectação -, mas muito esforçados por aparecer na ribalta editorial. O público alvo destes sábios é o mesmo da revista Caras.


Pois. Critico, mas o facto é que também tenho grossa pecha. Afinal o buraco em que me enfio cada vez que começo a ler põe a nu grandes fragilidades no conhecimento. Desta vez da História da Europa. Depois da Ciência e das Arábias voltarei à Europa. Mas, claro, nada garante que não esteja um mês ou dois sem ler livro algum – isto da ignorância dá muito trabalho a alcançar e manter. Não é fácil, minha gente. Não é nada fácil.


Ontem fiz folga da audição do Aparição. Tentei duas vezes, mas o ruído em volta desconcentrou-me. Devo terminar no fim-de-semana. Agora vou preparar o sofisticadíssimo almoço. Estou que nem posso de tão vaidosa com a “cólidade” e esmero do repasto. 


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Bom Dia Santo.