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20/03/2020

Ricardo Reis

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*


Não só quem nos odeia ou nos inveja


Nos limita e oprime; quem nos ama 


Não menos nos limita.


Que os deuses me concedam que, despido


De afectos, tenha a fria liberdade


Dos píncaros sem nada.


Quem quer pouco, tem tudo; quem quer nada


É livre; quem não tem, e não deseja,


  Homem, é igual aos deuses.


 


*


 


Nunca a alheia vontade, inda que grata,


Cumpras por própria. Manda no que fazes,


Nem de ti mesmo servo.


Ninguém te dá quem és. Nada te mude.


Teu íntimo destino involuntário


      Cumpre alto. Sê teu filho.


 


*


 


Estás só. Ninguém o sabe. Cala e finge.


Mas finge sem fingimento.


Nada esperes que em ti já não exista,


Cada um consigo é triste.


Tens sol se há sol, ramos se ramos buscas,


Sorte se a sorte é dada.


 


 


Ricardo Reis