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28/03/2020

A ponte

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Era o passado dia sete de Março. No dia anterior tínhamos estado na Meet Vincent van Gogh. Comoção total para mim. Daquelas que embarga a garganta ou, no caso, os dedos, por isso nem vale a pena adiantar mais nada. Depois, nessa manhã afortunada, passámos na Gulbenkian para ver a colecção do fundador e a moderna.


Almoçamos e partimos os dois para a margem sul. A minha mãe pôs-se a caminho da baixa e do Martinho da Arcada para matar saudades do tempo em que viveu em Lisboa. Há mais de cinquenta anos. Nós apanhámos trânsito. Muito.


Foram poucos os minutos para quebrar o gelo ao som da sanfona brasileira antes de atravessar a ponte em Uber nordestino, com motorista violeiro. E vieram à baila, cada um por sua vez, com o cicerone a procurar na sua colecção: Marcus Viana, Alceu Valença, Ivan Lins, Sérgio Reis,  Luís Gonzaga e Gonzaguinha, Elba Ramalho, Almir Sater. E com ele entrámos em Almada ao som de Tocando em Frente, cantarolada a três vozes, quatro se contarmos com a voz saída das colunas.


À saída do carro, trocas de cumprimentos e galhardetes e um inesperado: foi um prazer inenarrável, com sotaque nordestino. Ah, gente boa. O gosto foi todo nosso.


Na outra banda, casa de alentejanos. Café. Guaraná e torresmos com pão. Memórias antigas várias de sucuris e coral. Tatu, beija-flor, gambá e bem-te-vi. Modinhas alentejanas na guitarra fanada de uma corda, que o dono dos acordes e filho da casa há muito abalou para o Porto: Meu lírio roxo do campo, Era o vinho, Abalei do Alentejo. E alguns fadinhos: O Embuçado e Guitarra toca baixinho. Risos, sorrisos, avós, pai e filha. E um até ao meu regresso.