
Os versos de Ricardo Reis desenham a definida sensação de estar do lado de fora. Bem sei que a ideia feita de outsider, popularizada entre mui integrados e in intelectuais e artistas, traz grandes dividendos. Mas nada disso assenta no desajustado. Quem se sente do lado de fora nunca estará dentro nem vingará no território e tempo dos seus pares. O desajustado não brilha, muito menos usa o sentimento de inadequação para colher lucro. O hiato de entendimento entre si e o outro tem peso, fere e dói. É ferida com que se aprende a viver, mesmo no contentamento.
Esta é também a loucura de Van Gogh.
Com propensão para a estranheza do mundo quando, na segunda metade dos anos oitenta, descobri Van Gogh e Fernando Pessoa não sabia que se iriam democratizar tanto. A queda para o gosto proletário, este pé de pobre onde me sustento, faz-me gostar daquilo que todos apreciam ou passam a gostar. E constato que o mundo se tornou tão inadequado quanto os grandes mestres. É o reconhecimento das massas, que neles se revêem.
Na mesma altura encontrei a poesia de Miguel Torga, José Gomes Ferreira, Sophia de Mello Breyner Andersen e Jorge de Sena. Este último ensinou-me que O viver que grita muito não diz nada./A morte ao dizer tudo é bem calada.
Alguém disse que o carácter se forma por volta dos quinze anos. Idade com que li os versos que me marcaram. Foi na ode de Ricardo Reis e o dístico de Jorge de Sena que me moldei. Com Ricardo Reis percebi que para sempre seria forasteira no sentimento e na ideia. Sem perder o juízo completo, porque a vida é para ser vivida e o desnorte contente só cabe no cinema. Só um tonto ou intrujo procura a loucura. Quem um dia perdeu o norte só quer voltar a ter paz.