
A tensão acumulada faz com que a memória recente se fragilize. Percebes que não é só a tua, quando outros em trabalho te pedem ajuda para recordar qualquer coisa que se passou há meia-dúzia de dias. Meia-dúzia de dias são mais do isso. Percebes que tens que descarregar a energia que carregas. E sabes como fazê-lo. Sabes. Sabes. O próprio verbo saber ganha significado diferente. Passas a acreditar que sabes em vez de saber. Recebes uma mensagem amiga que transmite conselhos inteligentes de um professor de educação física. Essencialmente é isto: temos que nos mexer mesmo dentro de casa, nada de ficar na mesma posição muito tempo. Sorris quando vês o conselho de falar ao telefone a andar para trás e frente no corredor. Afinal é agora que vais passar por ser uma pessoa normal ao fazê-lo. Sim, porque sempre fizeste isso, andar no corredor ao telefone ou não. Tal como no filme do Woody Allen, que faz o buraco à entrada de casa de tanto meditar sobre a escolha da religião ideal. É altura de dares uso à elíptica. Afinal, como diz o teu sobrinho: para estendal acho cara. Meia-hora por dia, prometes a ti mesma. Sim, tem que ser. Afinal ainda há horas cedeste e a propósito de uma ninharia, um mini incidente doméstico, deste por ti a chorar. Tensão acumulada, pensaste. Então, deixa, chora que logo passa. E passou. Com o choro e um pedido de desculpa pelo destempero que ninguém tem que levar com o teu mau feitio. Agradeces a sorte de contigo teres alguém inteligente e sereno. Que te fala das pessoas que passam dificuldades por falta de saúde, por solidão, por pobreza. Ou por isso tudo ao mesmo tempo. Dói. Ainda antes disso fazes duas chamadas, falas com quem te preocupa e os laços apertam-se à distância. Sentes que és afortunada por ter pai e mãe saudáveis e donos das suas vontades. E teimosos. Vai ficar tudo bem. Voltas ao rame-rame e tudo parece funcionar. E todos os laços parecem bem enlaçados. Sobra apenas dizer que é preciso que as cabeças estejam ginasticadas.