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09/03/2020

Elo de vida

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Os sentidos dão solidez ao mundo. Criam espírito. Se unir os retalhos dos sentidos às estações posso contar a história do ano, baralhada ou não. Se aliar os pedaços de sensações a gente faço a biografia. Se os confinar ao relógio faço emergir a angústia, a menos que dê o lugar e os converta em desejo. Os sentidos espraiados nos rostos de velho, na mão manchada de castanhos e veias salientes na pele clara, bem fraca e fina. No olhar para os pequenos aviões de plástico da primeira grande guerra lançados ao céu pelo elástico da fisga, poisados no telhado por força a mais. No anoitecer dos morcegos em voo a pique ao encontro da pedra atirada ao ar. Nas vozes, nos risos e guinchos alegres de crianças, guardadas pelo cheiro da terra molhada, das maçãs e das tílias. Ou da figueira, das algas. No pêlo macio do cão da Serra da Estrela e no cheiro pestífero ao sair da represa. No atrito dos grãos de pó da terra nas pontas dos dedos a descascarem com restolho o galho de árvore para riscar no chão as balizas do futebol. No tecido áspero das calças impermeáveis e almofadadas no dia da neve, e o arrepio nos ombros, na espinha e atrás da orelha. No branco. Tudo branco, e ramos de árvores a espeitar entre o manto de neve reflectido no céu. No sabor doce do pingo do estame da flor madressilva e na verdade na água da mina.