
Excertos da entrevista a George Steiner, publicada no Expresso a 10/06/2017:
«Uma anedota — ou “lema de vida” — contada entre chávenas de café deu conta dessa força identitária: "Uma onda gigante está prestes a acabar com o mundo daqui a dez minutos. O católico começa a rezar pela salvação. O batista apressa-se a deixar as finanças em ordem. E o judeu diz: ‘Se faltam dez minutos, ainda posso aprender a respirar debaixo de água."
*
«E que sonho lhes deixamos?
A ciência. Vivo entre cientistas e tenho-me divertido muito a ouvi-los. Nunca houve um tempo melhor para eles, porque na próxima segunda-feira saberão alguma coisa que não sabiam na sexta anterior. O progresso e a descoberta estão no interior da dinâmica da ciência. Tive algum treino científico e tentei compreender ao menos uma ínfima parte do que os cientistas fazem. E é um mundo novo, intocado»
*
«“Não fugir das dificuldades.” As palavras são suas e estão ligadas à sua infância, quando o seu pai o obrigou a olhar pela janela as manifestações antissemitas.
Esse momento mudou a minha vida. Havia um desfile na rua em que se gritava: “Matem os judeus!” A minha maravilhosa mãe apressou-se a fechar as cortinas, mas o meu pai disse: “Pelo contrário, eu quero ver isto. Mon petit, isto chama-se História.” Que coisa incrível para me dizer! Nunca voltei a ter medo. Por outro lado, nasci com uma deficiência severa [no braço direito] e a minha mãe não me deixou ser canhoto. Para ela, a autocomiseração era algo repugnante.
*
Foi o seu lema de vida?
Sem dúvida. Mas, acima de tudo, o meu lema foi saber que a força mais poderosa é estar interessado em alguma coisa. Pode ser a Dinastia Ming, o que quer que seja, se estiveres interessado o suficiente para o estudar e aprofundar, então não corres perigo. Se te prendes a qualquer coisa — pode ser arqueologia, música, desporto — que seja maior do que tu próprio, não corres perigo. O terrível é quando as pessoas se prendem a uma nada, ao vazio.»