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Há ideias recorrentes na astrologia. O ciclo e a forma como a vida humana está predestinada a passar por períodos melhores e piores em função dos alinhamentos dos astros e de como às acções correspondem as colheitas. Dizem os astros que o mal e o bem tocam todos apesar do carácter diferente de cada um. Outra ideia base da astrologia e demais esoterismos é a de que a felicidade está dentro de cada um e que só nos completamos se estivermos em paz connosco. Ora isto por muito atraente e tentador que seja, é assunto para gerar vários equívocos e é engraçado ver como a ideia é cultivada por almas informadas e inteligentes. Como não nascemos de geração espontânea e não vivemos em reclusão como ermitas, por mais que teorizemos e pratiquemos o isolamento, não somos nem nunca seremos auto-suficientes em matéria de espírito. Ter um mundo interior rico é um tesouro infindável, mas o crescimento como ser humano faz-se necessariamente na interacção com o outro.
Bem sei que grandes momentos de inspiração e de composição de escritos, música ou pintura dão a ideia de génio isolado superiormente dotado por entidade metafísica, mas a realidade nua e crua é bem outra. A incompreensão e a solidão - são sentimentos diferentes - residem não raras vezes em deficiências de ordem psicológica. Mas o facto dos problemas mentais não terem glamour leva muitos a teorizar e intelectualizar sobre o encontro consigo próprio, quando o que dói, o que verdadeiramente dói é o desencontro com os outros por incapacidade de gerar compreensão ou tão simplesmente por falta de sorte. Na outra banda, quem não tem problemas mentais usa interesseiramente a ideia de incompreendido para vender mais. Um sapateiro ou um calceteiro não diriam isto de forma mais crua, mas a ideia é mesmo essa, porque a realidade da autoria e da arte é bem mais prosaica do que a vaidade e fingimento dos autores permitem revelar. E também serve bem aos interesseiros.
É pena. Porque se apreciamos a beleza da obra, poderíamos também estimar o processo de criação e os sentimentos que estão na raiz. Tanta pulsão - por desencanto, desgosto, desespero, confusão, revolta, raiva, ressentimento, ou por bondade, amor, desejo, compreensão, surpresa, medo, confiança, ou por uma macedónia de todos estes sentimentos e mais algum – tem por base desequilíbrios mentais. Eles são propícios à criação, ninguém duvida. Porque é penoso aceitar a beleza da deficiência mental? Porque é tão difícil perceber que quanto mais dura e agreste é a vida para uma alma em guerra consigo mesma e com os outros, mais valor tem a criação? A sua redenção. E porque custa perceber que uma deficiência que dói não se constrói ou imita para dar ar de artista incompreendido?
As obras com paisagens rurais e urbanas desenhadas a papel químico de monografias, os chavões na atitude e postura das personagens e diálogos escritos de caneta na mão direita e prontuário na esquerda e os sarcasmos nos retratos emocionais e sociais dão óptimos excertos para dissecar nas escolas secundárias. São cânones. Os novos textos soltos e aparentemente despojados e arriscados, pretensamente desalinhados, desprovidos de cuidado gramatical e qualquer forma, para dar ar vanguardista, nem para a análise dos miúdos deveriam dar, por tamanha banalidade no traço. Logo, uns e outros estão aptos ao sucesso.
É assim a vida e é assim que a vida deve ser. Seria ultrajante para quem cria com sofrimento, por dever e devoção ser confundido com o mundo que não é nem nunca será o seu. O mundo saudável e comum. O mundo que teoriza e intelectualiza o sofrimento que não conhece senão do que lê, vê ou ouve em quem cria com verdade.
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O divertido de tudo isto é que ao escrever banalidades sobre astrologia como entrada, no primeiro parágrafo, devo ter afastado da leitura os doutos potenciais leitores. Para quem ficou, se me permitem um conselho, esta é uma das melhores formas de testar e afastar pessoas desinteressantes. Comecem por falar em astrologia, se fugirem logo, é muito provável que não tenham perdido grande interlocutor. Se não for suficiente, mostrem-se egocêntricos. Ninguém gosta de ver os seus defeitos reflectidos no outro. :)