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O estado de graça não se aplica só à política, toca as mais diversas relações. Basta observar a simpatia com que um patrão recebe um novo funcionário. Logo parece mais encantador e trabalhador do que os mandriões que já povoam a empresa há anos. A explicação está não só no dito antigo sobre as criadas que nos primeiros dias até as patas limpam às galinhas como no optimismo com que se encara a chegada de alguém à nossa vida. Quem chega mostra-se confiável e afável, quem recebe quer retribuir o que é dado, e vice-versa. O mesmo vale para as relações afectivas. No início as gracinhas tontas deles geram risinhos leves e alegres delas. Enternecem e é bonito de ver e sentir. As doçuras e gestos espontâneos delas derretem-nos, tornando os homens mais vulneráveis. E há lá coisa mais bonita do que perceber a vulnerabilidade de um homem? Com as devidas adaptações isto aplica-se às relações de amizade, de vizinhança e a todas quantas se possam estabelecer. Só que, como todos sabemos, o estado de graça é passageiro. Com o passar dos meses, dos anos a gracinha do homem pode parecer apenas uma estupidez ou parvoíce evitável e a espontaneidade da mulher uma estupidez ou uma burrice imperdoável ou vice-versa. E pode começar o ciclo de mal-estares e acusações recíprocas geradas no equívoco de que o estado de graça é eterno. Não é. Quando muito se as pessoas gostam e confiam de facto na outra, se a consideram e respeitam, o estado de graça vai aflorando no dia-a-dia ao longo dos anos, ou mesmo de uma vida, em manifestações de atenção e carinho que polvilham a vida quotidiana de quem gosta e é razoável consigo e com o outro. De quem aprende a perdoar as palermices e demais defeitos e tem esperança, mas nunca a certeza de que a alegria vai durar.