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19/02/2025

Sonhos

Esta semana voltei a deitar-me muito cedo, o que faz maravilhas pela boa-disposição matinal e ao longo do dia. Durante a jornada de trabalho dou por mim a desejar que chegue a hora do aconchego de deitar e dormir no mimo da famelga, isto é, com Nuno e Ritz. Como sempre acontece quando durmo a horas saudáveis, lembro dos sonhos ao acordar.


Recordo as imagens: além de pratos com arroz branco empapado, dois assaltos a casa. O primeiro não tem muito que se lhe diga, claro que já fui ver os significados nas páginas de psicanálise e esoterismo. Os dos roubos em casa são sonhos que tenho pontualmente desde miúda e habituei-me a apreciar as variações ao longo do tempo. É curiosa esta preocupação de segurança em mim que quando vivia sozinha num rés-do-chão, mantinha as janelas abertas dia e noite o ano inteiro. Cheguei ao cúmulo de acordar uma manhã e ver a porta do apartamento aberta por me ter esquecido de a fechar numa entrega de compras do supermercado. Em suma, acordada os roubos e assaltos não são uma preocupação. Já em sonhos o caso muda de figura.


No primeiro sonho de assalto de casa, ia a entrar e o ladrão a sair. Estávamos numa ruela estreita sem espaço para carros, qualquer coisa entre ilha portuense, musseque angolano e favela brasileira, cheia de gente a andar sem qualquer preocupação com o que estava a acontecer. A nossa casa era um dos muitos barracões, mas de cimento. O ladrão levava uma chave tubular na mão, que seria a nossa, fiz gesto para ma dar, exigi que restituísse o que havia tirado e perguntei pelo Nuno que estaria dentro de casa, era o que me preocupava.


No segundo era o actual apartamento e vi a porta aberta para trás e a casa completamente vazia. Vi o ladrão, fiz um gesto apontando a porta e disse rua. Mas o tipo não me ligou peva e continuou à procura de nada espreitando todas as divisões vazias. Sei que gritei porque o Nuno pôs-me a mão e avisou que estava a ter um pesadelo. Dada a sensação de não ouvirmos a nossa voz em sonhos fiquei a pensar se somos mudos ou surdos no mundo onírico, concluí por surdos, já que o Nuno ouviu o grito.


Chego à conclusão que nos sonhos aprendi a portar-me como uma mestre-escola, ralho com os ladrões como meninos pequenos. Suponho que seja o efeito de ter assentado na casa dos cinquenta. Nos sonhos porto-me assim e na vida real já converso à vontade com lojistas e outros desconhecidos. Se não me ponho a pau perco toda a reserva e vergonha que tinha em novita e começo a dar conselhos a desconhecidos: faça assim na cozinha, faça assado em viagem, compre isto, leia isto, não vista aquilo, comporte-se assim e assado. Seria o grau zero. Talvez quando ficar senil. Lá chegarei. Tudo muda, desde começar a adorar deitar e acordar cedo para galhofar em família até rezingar com ladrões nos sonhos.


Já há muito não contava sonhos nas Comezinhas. Vejamos se pega moda outra vez. Oh, que horror, "pega moda", a linguagem vulgar. Ai o mindinho esticado. Devia dizer: faz escola.